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“O Universo Concentracionário” de David Rousset

Os escravos só dão o seu corpo

Entre os nomes que mais refletiram o flagelo do terrorismo nazi, tanto por via de experiências in loco como através de uma assaltante e terrível herança social, saltam-nos à memória Primo Levi, Robert Antelme ou Hannah Arendt.

Mas muitas outras personalidades lutaram com todas as suas forças contra a máquina montada pelos homens comandados por Hitler. David Rousset, filósofo francês, perfila-se nessa honrosa lista e o facto de ter sido capturado pela Gestapo em 1943 e deportado para os campos de trabalho de Buchenwald e Neuengamme, gravou-lhe no corpo e alma vivências dilacerantes.

Rousset foi o primeiro que ousou introduzir a palavra “Gulag” (campo de trabalho soviético) no léxico dos franceses revelando assim aos seus compatriotas o sistema desumano levado a cabo pelas políticas de Estaline.

A sua libertação das amarras nazis, em 1945, fez crescer dentro de Rousset o sentimento, determinado, de contar ao mundo o que se passava dentro do arame farpado. Assim, ainda física e psicologicamente debilitado, e com o precioso auxílio de Sue, sua esposa, durante cerca de três semanas dita um texto que versava sobre uma visita guiada ao campo de extermínio de Buchenwald.

Esse trabalho, registado em forma de visita guiada, seria publicado em La Revue Internationale em três partes: a primeira em dezembro de 1945, e as duas restantes em janeiro e fevereiro do ano seguinte. O interesse gerado pelos referidos relatos leva a que os mesmos sejam editados em forma de livro, obra essa que seria galardoada com o Prémio Renaudot e figura ainda hoje como um dos mais poderosos e profundos testemunhos de um sobrevivente dos campos nazis.

Falamos de “O Universo Concentracionário” (Antígona, 2016) um livro que reflete o devastador quotidiano dos presos nos campos de concentração assim como o terrível impacto que essa vida cravava em quem lá passou, sobreviveu ou morreu. Este testemunho criado por David Rousset vagueia entre episódios mais descritivos, uma objetividade distante e factual e momentos em que se questiona as diferenças de natureza da espécie humana.

Com recurso ao glossário que Rousset compilou nas últimas páginas do livro, ao leitor é permitido entender o funcionamento da «máquina de extermínio e de produção de terror concebida por Hitler», bem como refletir o exercício criado por o filósofo francês na tentativa de desmontar, de forma assinaladamente lúcida, a obscena brutalidade nazi.

O sangue-frio com que este livro foi escrito e sentido, leva o leitor a imaginar (e não mais que isso) a humilhação das pancadas recebidas por gente de fatos às riscas azuis e brancas/cinza que viu a sua dignidade destruída em nome de um “política” irreal, criada nas sombras de um líder refém da sua solitária loucura.

Ainda que a morte esteja omnipresente no todo de “O Universo Concentracionário”, nas suas entrelinhas também é possível sentir uma pontinha, racional, de vitória por parte de quem conseguir fintar a dama da foice e é hoje, por direito próprio e devidamente reconhecido por todos que amem a paz, um herói. E é por isso que livros como este são obrigatórios para que todos pensemos nos erros do passado, evitando-os, veemente, no presente e futuro preservando assim a memória de quem perdeu a vida por ter nascido com uma fé própria cujo corpo foi escravizado mas nunca o seu crer e alma.



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