Alípio a família 7

As nossas doces e perturbadas famílias

Despediu-se na primeira semana de abril, este espetáculo que juntou Carmen Santos, David Pereira Bastos, Joana Cotrim, Ana Sampaio e Maia, Rita Morais e Isac Graça, transformando num insólito espaço teatral o Estrelas de Vilhena, um pequeno café vizinho da monumental Culturgest.

No café Estrelas de Vilhena, onde se passa esta peça inspirada em “ Un Air de Famille” (1997) de Agnès Jaoui e Jean Pierre Bacri., David é o dono do café, Joana, a irmã de David. Há um outro irmão, Isac, casado com Rita, e uma matriarca austera e controladora, Carmen. E também Raquel, casada com David, ou melhor, devia haver, porque não aparece.

Começa logo por aqui o desvendar da singularidade do projecto teatral assinado por Rita Morais, Ana Sampaio e Maia e Joana Cotrim. Não é só o espaço, o café Estrelas de Vilhena, que é retirado da sua pacholice tranquila de café situado na Rua Filipa de Vilhena, cozido à quarta-feira, choco frito nos outros dias, para se tornar no lugar teatral, diz-se site-specific. São também os actores que emprestam a sua identidade aos personagens para baralharem e darem de novo nesta tensão entre ficção e realidade que se manterá como fio condutor de todo o espectáculo teatral.   

E já que falamos dos actores e das actrizes, há uma questão curiosa sobre a representação: esta tensão entre ficção e a realidade que encontramos quer no espaço cénico quer nas personagens, também encontra uma imaginativa influência nos estilos de representação adoptados: a peça estrutura-se em torno da influência que a matriarca da família, Carmen, tem nos seis personagens. Os mais próximos dela são o filho Isac e a nora, Rita. Numa espécie de oposição emocional, está David, o filho, o dono do café, eternamente rejeitado, Joana, a filha rebelde que bebe, ama uma mulher, Ana, empregada do café, hostilizada declaradamente pela matriarca. Os três, David, Ana e Joana, têm um estilo de representação muito próximo do hiper-realismo, enquanto que os outros três, Carmen, Isac e Rita, são caricaturas, muito teatralizadas, cheias de tiques, de gestos e maneirismos. Neste contexto, a personagem de Rita, no desenlace final, no seu momento de explosão e quase catarse, acaba por estabelecer uma ponte entres estes dois universos de representação, reforçando a coesão narrativa do espectáculo.  

Tudo isto, esta articulação intencional entre uma abordagem que assume declaradamente a ficção e a outra que a tenta baralhar, trocando as voltas ao espectador, fazendo com que ele não se sinta muito seguro das suas conclusões, serve também outro propósito: os espectadores são naturalmente convocados a serem não apenas parte do site-specific, também a projetarem-se naquela família, que acaba assim por ser muito das nossas famílias, da maior parte das nossas cada vez mais disfuncionais famílias. As nossas famílias doentes, psicóticas, neuróticas. Onde o amor se substitui ao ódio, a uma toxicidade emocional, uma incapacidade de relação, um espaço impossível que cada um de nós tenta manter, suster, reinventar.

A ideia de fazer “A Familia” é consequência de um encontro entre Rita Morais (com Ana Sampaio e Maia uma das fundadoras dos Sillyseason) na Bélgica.  Rita foi fazer um mestrado em Encenação em 2014 para a RITCS em Bruxelas. Em 2015, quando o termina, Joana Cotrim entra nesse mesmo mestrado. Em discurso directo, Rita Morais revela-nos um pouco sobre o processo de criação do espectáculo :  

 

“ – Acabámos, eu e a Joana, por ficar muito próximas porque eu continuei de alguma forma a viver em Bruxelas e a nossa escola tinha uma coisa maravilhosa: dava-nos dinheiro para pagar a atores e a um coach/orientador que podia ser um artista qualquer com quem quiséssemos trabalhar, que não precisava de ter nada a ver com a escola, trabalhava como “professor convidado”. Então a Joana, já depois de eu ter terminado o mestrado, convidou-me duas vezes para participar como atriz nos espectáculos dela e no último convidou também o Peter Vandenbempt como coach. Durante dois ou três meses trabalhámos intensamente naquele que seria o espectáculo de conclusão do mestrado da Joana e criou-se uma relação profissional muito interessante entre nós que de alguma forma se prolonga até hoje.

 

Numa altura em que ambas estavam a regressar da Bélgica, no final de 2017, surgiu a ideia deste texto, por sugestão de Vandenbempt que já tinha feito este texto na companhia Tristero. Continua a Rita:

 

“- Havia uma vontade de alimentar os laços criados lá, mas também claro (re)descobrir os colegas e amigos portugueses. Gostámos do que lemos, e decidimos abrir a discussão.  De seguida, juntas, começámos a pensar e a escrever a proposta e as suas bases, e sobretudo aquilo que queríamos pôr na mesa. E achámos que havia aqui alguns gestos fundamentais: investir no texto dramático e sobretudo levar o teatro às pessoas, fazê-lo chegar ao espaço do quotidiano, tirá-lo da blackbox, fazê-lo existir no espaço não-convencional do café público.

 

Andaram à procura de cafés e encontraram um que tinha acabado de abrir. Os proprietários estavam cheios de vontade de ter iniciativas novas. “Eles assistiam aos ensaios, eram incríveis”, contou ainda Rita Morais, para quem a representação num café cumpria vários objectivos importantes:

 

“- Ao colocar a ação a acontecer no café, invadir artisticamente o espaço urbano, rasgar a arquitetura social e as suas rotinas, mas sem paternalismo, tentando ao máximo desenhar o gesto teatral com o rigor e risco com que o faríamos num palco convencional. Devo dizer, muito importante, que também foi muito aliciante a ideia de ficarmos relativamente autónomas com esta proposta, no sentido de podermos trabalhar com recursos mínimos, sem demasiadas restrições do ponto de vista da produção, no fundo, conseguirmos trabalhar na mesma no caso de termos poucos apoios em termos de acolhimentos, parcerias, financiamentos.”

 

Talvez seja interessante, em nota quase final, referir esta questão do site-specific, até porque, como assinalam Jorge Palinhos, Maria Carneiro e Susana Paixão em “Teatro Site-Specific, três estudos de caso”, publicado pelo Centro de Estudos Arnaldo Araújo, da Escola Superior Artística do Porto, ela adquire uma expressão contemporânea na afirmação de novos projectos de criação teatral como, entre outros, o Teatro do Vestido,  as Visões Úteis e Produções Suplementares de Teatro.  Como refere Jorge Palinhos, a ideia de arte site-specific que ganhou relevância a partir dos anos 60, com a tentativa de vários artistas criarem obras que fossem específicas de determinados locais (em Portugal ficou também famoso um espectáculo feito em carruagens de um comboio, pelo Teatro O Bando), relaciona-se com o desejo de dar relevo às impressões de autenticidade e experiência que cada espaço proporciona e de convocar o espectador para fora da sua zona de conforto.

Finalmente: o apoio da Fundação GDA, instituição que gere os direitos conexos. Ela promove um programa de apoio à actividade teatral que se está a mostrar fundamental como complementar para os programas oficiais de apoio às artes. Principalmente porque estes fazem com que criadores, companhias e produtores se sintam tantas vezes perdidos numa espécie de Labirinto de Creta. 

 

A Família

 

Um espectáculo de Ana Sampaio e Maia, Joana Cotrim e Rita Morais a partir de Air de Famille de Agnès Jaoui e Jean Pierre Bacri.

Interpretação: Ana Sampaio e Maia, Carmen Santos, David Pereira bastos, Isac Graça,Joana Cotrim e Rita Morais.

Consultadoria dramatúrgica: Peter Vandenbempt

Desenho de iluminação: Carolina Caramelo

Comunicação: Pedro Sousa Loureiro

Vídeo: Alípio Padilha

Apoio à Criação Dundação GDA

 

 

Estreou a 11 de Março em Lisboa e terminou a sua carreira dia 4 de Abril.



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