Doja Cat @ MEO Arena (02.06.2026)
Um anjo caído do céu aos trambolhões. E ainda bem!
Doja Cat apresentou-se na MEO Arena no passado dia 2 de Junho. Um espectáculo muito bem pensado, construído e, enfim, realizado.
Uma sala a meio-gás (como quem diz, pouco cheia), o que não quer dizer que o seu potencial não tenha sido todo aproveitado.
O concerto começa às 21h11. Hora pouco exacta, efectivamente, não dominasse a artista o ofício da sinuosidade. Por conseguinte, Doja Cat foi quase mágica, tirando da cartola toda e qualquer tentativa de sedução; foi quase feiticeira, com a sua varinha de condão que nos revirou a pele.
As luzes são apagadas por vários segundos. Ao mesmo tempo, surgem telemóveis no ar contrariando o silêncio luminoso. Mentes em êxtase, gritos de boca em boca, uma noite de núpcias em nada improvisada, em tudo desejada.
A música como um ópio.
Viciante, hipnótica.
Uma entrada em palco digna. Um piano e um trompete dão o mote – sample da «La Vie En Rose» (Édith Piaf) no background. De repente, Doja Cat imbuída sob um manto branco. Nos ombros, um formato em V, não fosse a “Ma Vie World Tour”… Vai subindo aos céus, tão subtilmente como se fosse uma verdadeira ascensão a um patamar superior. A artista, excelsa, entoa o seu rap primordial. Da chanson française de Édith Piaf a um quase rap disco (mas dos anos 2000) de Doja Cat.
Versátil e camaleónica.
Doja Cat, a intérprete irreverente.
O branco cede lugar a várias outras cores da paleta. A cantora em tons amarelos e roxos, às riscas, um fato (bem) ajustado. | «Lipstain» e «Cards» são as primeiras músicas do baralho de cartas a ser lançado naquela noite. Seriam quase trinta jogadas (29 canções), distribuídas por quase duas horas de concerto. Tal dama de copas ao comando da tripulação audaz que canta, rodopia e toca. | «Kiss Me More» é a canção que se segue – uma evasão envolta em afago; querer mais beijos pode ser tão simples e tão comum…
O cenário à nossa frente é deslumbrante. Uma espécie de pista de dança que vai do chão ao tecto – fonte cromática de belas conjugações luminosas. Conjugações luminosas essas que apareceram como lasers; que se formaram como nuvens; que se prolongaram quase como um delírio.
Geometrias (e geografias) várias.
Isto é…
… como se tudo se alinhasse em prol de uma linha infinita…
… que abarca várias influências artísticas,
que bebe de múltiplas sonoridades,
que absorve diferentes estéticas,
que vive da performance e, atrevo-me, da poética teatral.
Doja Cat transformou o seu riso maléfico em graça obstinada; a sua postura carnal em ouro maciço; o seu alcance corporal e vocal em aptidão lógica. | O coro de benfeitores era composto por uma dezena de pessoas – instrumentos aos montes, vocais de apoio aos pares, e todos bailarinos sem restrições.
Ouviu-se, também, «Gorgeous» e «Couples Therapy». Uma deu seguimento à outra, e da outra se construiu a primeira interacção falada com o público. E o que se faz quando se está sob uma chuva de adrenalina? Dança-se, pois está claro!
[Adaptaram-se canções
e fizeram-se arranjos musicais que nem sempre foram efectivos;
o que não quer dizer que não fossem felizes de cada vez que faziam ressus-
citar contextos e sinfonias.]
Sintonias onomatopaicas, friso.
«Woman», «Paint the Town Red», «Need to Know» e «Demons»… mais quatro músicas alucinantes e alusivas a passados recentes. Muitas palmas e alguns brilhantes, mais brilhantes e bastantes palmas. | «AAAHH MEN!» e «Boss Bitch» foram das últimas a serem entoadas. E perante o axioma “I’m a bitch and a boss, I’ma shine like gloss” rumou-se em direcção à «Say So» e, então, à «Jealous Type».
E fogo. Muito fogo.
Metafórico e literal.
Finalmente, o milagre da multiplicação… de ROSAS! Distribuídas, enfim. | Por certo que estaríamos prontos para o after party… ali, ali mesmo. E com Doja Cat de novo! | Ainda bem que os anjos existem – com mais ou menos devoção que tenhamos, é seguro dizer que às cambalhotas também se fazem obras-primas.
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