naoko

“Antes de Partir” de Naoko Higashi

Ir para depois ficar

Imagine que podia regressar ao mundo dos vivos para estar com aqueles que ama. O único senão é que a existência passaria por ser um…objeto. É através desta premissa envolta de imaginação, magia e fantasia que evolui Antes de Partir (Bertrand, 2026), da escritora japonesa Naoko Higashi, um livro onde a morte não surge como ponto final, mas como suspensão melancólica.

A partir dessa ideia, Higashi constrói uma sequência de histórias breves sobre despedida, ausência e desejo de permanência. Entre as quais, há uma mãe que regressa sob a forma de resina de basebol para assistir ao jogo do filho; uma mulher que escolhe tornar-se a caneca preferida do marido; um menino que habita um escorrega de parque infantil para continuar perto da família; ou uma adolescente que se transforma num bálsamo labial para permanecer junto do rapaz por quem estava apaixonada.

Tendo o amor e a saudade como elementos que unem as 11 peças deste puzzle, nem sempre Higashi consegue manter o fulgor, pois, se, por um lado, há narrativas que prendem pela delicadeza da ideia central e a capacidade de transformar objetos banais em depósitos de memória afetiva, outras fiquem aquém, sendo incapazes de desenvolver plenamente as personagens ou o impacto emocional do que se quer contar.

E, de facto, Antes de Partir vive dessa fragilidade. Há histórias profundamente ternas, mas também episódios desconfortáveis ou estranhos, como o do idoso que regressa ligado a uma biblioteca. Essa oscilação entre o reconfortante e o inquietante impede que a obra caia no sentimentalismo fácil típico de alguma “healing fiction” japonesa contemporânea.

No entanto, o grande mérito de Higashi está na(s) pergunta(s) que deixa suspensa(s) ao leitor: se pudesse permanecer no mundo depois da morte, em que objeto escolheria viver? É essa interrogação íntima que dá força ao livro.

Contas feitas, temos na mão um livro de escrita contida e quase minimalista, que funciona como uma coleção de pequenas elegias sobre aquilo que fica por dizer. E ainda que nem todos os “episódios” tenham o mesmo peso narrativo, a maioria consegue tocar num medo universal: o de desaparecer sem conseguir despedir-se.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This