“A Quinta dos Animais” de George Orwell
Fábula sobre a decadência ética e moral dos sistemas políticos e o fracasso das teorias de governação subjacentes, quando confrontados com a ganância dos indivíduos.
“A Quinta dos Animais” (Guerra e Paz, 2024) de George Orwell, publicada pela primeira vez em 1945, é uma alegoria sociopolítica de natureza satírica, composta sob a forma de fábula.
Com efeito, o socialismo é uma constante em várias das obras de Orwell, mas a razão de ser desta “A Quinta dos Animais” decorre daquilo que este considera ser a crença prevalecente – e falsa – de que a Revolução Russa de 1917 foi um passo em direção ao socialismo para milhões de russos pobres e oprimidos. Orwell sentiu que a ascensão brutal de Estaline ao poder não foi apenas bárbara, mas uma traição aos princípios socialistas pelos quais Lenine, Trotsky e ele próprio presumivelmente lutaram (importa recordar que Orwell serviu nas trincheiras do Partido Operário de Unificação Marxista durante a Guerra Civil Espanhola). Em retrospetiva, isto parece-nos óbvio, mas num mundo saído da Segunda Guerra Mundial, tal crítica à Rússia foi sufocada por muitos esquerdistas britânicos que queriam acreditar que esta estava de facto a caminhar em direção a uma verdadeira união de repúblicas socialistas, quando para Orwell era já evidente que a Rússia caminhava efetivamente em direção ao totalitarismo, conforme formula no prefácio à edição ucraniana com que se inicia a presente edição:
“De facto, na minha opinião, nada contribuiu tanto para a corrupção da ideia original do socialismo como a crença de que a Rússia é um país socialista e de que todas as condutas dos seus líderes devem ser desculpadas, se não mesmo copiadas. E, por isso, nos últimos dez anos, tenho estado convencido de que é essencial destruir o mito soviético, se queremos reavivar o movimento socialista”.
Ocorre-lhe então expor as suas opiniões, colocando a descoberto o mito soviético por via de “uma história que pudesse ser facilmente compreendida por quase todos”. A formulação desta ideia surge quando um dia se apercebe de um rapaz a conduzir um cavalo, chicoteando-o.
“Constatei que se os animais tivessem consciência da sua força, nós não teríamos qualquer poder sobre eles, e notei também que os homens exploram os animais de uma forma muito semelhante à forma como os ricos exploram o proletariado”.
Estava lançado o mote a partir do qual se desenrola este romance.
Assim, a narrativa tem lugar numa quinta, onde os animais parecem adquirir consciência acerca da sua condição e idealizam uma revolta que os liberte da subjugação opressiva de que são alvo por parte do agricultor seu dono. O agricultor é então expulso com violência, triunfa a rebelião liderada pelos porcos e instala-se uma nova ordem: “Todos os animais são iguais…”. Com os humanos fora da equação, os animais organizam-se e estabelecem uma sociedade utópica baseada nos princípios da igualdade e da solidariedade.
No entanto, à medida que os porcos consolidam o poder, acabam seduzidos pelo poder e à boleia de intrigas várias, eventualmente acabam traindo os próprios ideais que defendiam, levando à fratura da organização social constituída e transformando a quinta num regime distópico que de certa forma espelha o domínio humano opressivo contra o qual inicialmente se rebelaram. Da subversão dos princípios fundadores, nasce então uma nova ordem, e com ela uma adenda ao mote anterior: “…mas alguns animais são mais iguais do que outros.” A frase completa-se, fecha-se o círculo, nasce um dos melhores romances do século XX.
A novela de Orwell, além de sempre controversa, é uma das mais importantes e relevantes contribuições literárias acerca da corrupção dos ideais de igualdade e liberdade pelo poder. O romance de certa forma, inclusivamente convoca os seus leitores ao exame das formas pelas quais os líderes políticos, com motivos aparentemente nobres e altruístas, podem trair os próprios ideais em que ostensivamente acreditam, bem como as formas pelas quais certos membros de uma nação podem eleger-se para posições de grande poder e abusar dos seus concidadãos, inclusive sob o pretexto de os ajudar.
Apesar das referências, é claro que o significado do romance não está enraizado apenas no retrato da Revolução Russa, mas antes reclama uma condição de obra atemporal que reflete sobre a natureza cíclica das revoluções políticas e os perigos da obediência cega.
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