«Magalhães» e as ruínas do mundo que os Descobrimentos deixaram
O realizador filipino Lav Diaz transforma Fernão de Magalhães numa figura espectral que navega entre a grandeza e o colapso, num cinema de silêncio onde cada plano é um julgamento moral.
«Magalhães» (2025) é uma coprodução entre Portugal, Filipinas, Espanha, França e Taiwan realizada pelo filipino Lav Diaz, um dos cineastas mais radicais e singulares do cinema de autor contemporâneo. Com Gael García Bernal no papel do navegador português Fernão de Magalhães, o filme acompanha a última década de vida do explorador — de Malaca, em 1511, a Cebu, em 1521 — num percurso que vai da ambição colonial ao colapso total. Estreia em Portugal esta quinta-feira, 18 de junho, no Cinema Nimas, em Lisboa, com distribuição da Nitrato Filmes. Chega precedido de uma palmilhada impressionante pelo circuito de festivais: estreia mundial na secção Cannes Première do Festival de Cannes 2025, passagem por Toronto (secção Wavelengths), Rotterdam e IFFR, e o prestigiado Prémio Dourado partilhado com Kelly Reichardt no Festival Internacional de Valladolid (Seminci 2025). A Criterion Collection — casa dos maiores filmes da história do cinema — seleccionou-o para lançamento em Blu-ray e DVD, confirmando o seu estatuto como obra maior do nosso tempo.
O ponto de partida: uma epopeia que recusa a celebração
Há algo de imediatamente provocatório na escolha de Lav Diaz para narrar a história de Fernão de Magalhães. O realizador filipino — cuja filmografia inclui obras de quatro, oito ou mesmo dez horas — é o cineasta menos provável para fazer um «filme de Descobrimentos» no sentido convencional do termo. E é precisamente por isso que «Magalhães» importa: porque não é um filme sobre a glória portuguesa. É um filme sobre o que essa glória custou a quem a pagou sem ter sido consultado.
A narrativa divide-se em quatro capítulos, separados por anos e geografias. Começa em Malaca, em 1511, onde Magalhães participa nas campanhas coloniais portuguesas na Ásia e onde adquire um escravo maláio de nome Enrique. Passa por Lisboa, em 1513, e por Sevilha, em 1518, onde o navegador muda de lealdade da coroa portuguesa para a espanhola. E termina nas ilhas Filipinas, em Cebu, em 1521, onde a tentativa de imposição do cristianismo aos habitantes locais culmina na Batalha de Mactan e na morte do explorador. São 163 minutos que cobrem dez anos de história — o mais «compacto» de Lav Diaz, tendo em conta que ele próprio preparou uma versão integral com nove horas de duração.
Lav Diaz não tem a pretensão de fazer um épico à escala de «A Missão» (1986, Roland Joffé). O que ele constrói é outra coisa: uma meditação sobre poder, fé e violência colonial, contada com a sobriedade de quem acredita que o espaço entre as coisas diz mais do que as próprias coisas.

A linguagem do filme: o plano como acontecimento
A escolha mais imediatamente desconcertante de Lav Diaz em «Magalhães» é visual: o filme foi rodado em formato 4:3, no rácio de aspecto 1.33:1, o ecrã quase quadrado associado ao cinema clássico e à televisão analógica. Numa era dominada pelo widescreen, esta opção não é nostalgia — é uma declaração filosófica. O espaço vertical ganha presença: as árvores crescem para cima do enquadramento, as figuras humanas são contidas pelo ecrã, a natureza tropical das Filipinas e a costa atlântica de Portugal têm o mesmo peso que as personagens que habitam esses lugares.
A fotografia é da responsabilidade de Artur Tort — director de fotografia habitual do catalão Albert Serra, que co-produz o filme — e do próprio Lav Diaz. O resultado é uma paleta de dourados e verdes profundos que oscila entre a beleza e o presságio. A Criterion Collection descreve o filme como «uma viagem hipnótica gravada em imagens de beleza e horror estonteantes». Cada composição é meticulosa, mas nunca ostensiva.
A opção de Lav Diaz de filmar cada plano num único take é bem conhecida na sua obra anterior, mas aqui adquire uma dimensão específica. «Quero ver a realidade acontecer. Quero observar algo sem a minha intervenção constante. Cada plano torna-se um acontecimento», declarou o realizador. A câmara não persegue a acção — espera que ela apareça ou que já tenha acontecido. «Magalhães» é um filme que mostra o antes e o depois, eliminando sistematicamente o durante. A violência colonial nunca é mostrada directamente: chegamos sempre às suas consequências. Corpos. Silêncio. Destruição. O impacto é, paradoxalmente, muito maior.

As personagens e o que carregam
Gael García Bernal interpreta Fernão de Magalhães em português — a língua materna ficcional da personagem — num exercício actoral de contenção radical. O actor mexicano, cuja carreira passou pela sedução carismática de filmes como «Y Tu Mamá También» (2001) ou «Diários de Motocicleta» (2004), é aqui despojado de qualquer apelo fácil. O Magalhães de Lav Diaz não é herói nem vilão declarado: é um homem obcecado com cumprir uma missão que confunde com um desígnio divino. A sua loucura cresce gradualmente, alimentada pela distância de casa, pelas perdas sucessivas do seu grupo e por uma certeza religiosa que se vai transformando em fanatismo. A presença recorrente da sua mulher Beatriz (Ângela Azevedo) — em visões que o perseguem durante a viagem pelo Atlântico — é o único ponto de fragilidade que o filme lhe concede.
Mas o verdadeiro protagonista moral de «Magalhães» é outro. Enrique (Amado Arjay Babon), o escravo comprado por Magalhães em Malaca, funciona como o eixo ético do filme. Ele é quem mais viajou, quem mais viu, quem menos escolheu. A sua história de voz interior — em voice-over ocasional — reequadra a narrativa: não estamos a ver uma epopeia de descoberta, mas um relato de subjugação vista pelos olhos de quem foi subjugado. O arco de Enrique no desfecho do filme oferece uma das poucas notas de ambiguidade esperançosa numa obra de resto implacável no seu pessimismo histórico.

«Magalhães» é, fundamentalmente, um filme sobre o colonialismo — mas tratado com uma sofisticação que o distingue da maioria das revisões históricas contemporâneas. Lav Diaz não faz um filme de tese. Não há diálogos que expliquem a violência da evangelização: ela manifesta-se no silêncio que antecede e que se segue à acção. A imposição do catolicismo em Cebu, onde Magalhães tenta converter Raja Humabon (Ronnie Lazaro) e o seu povo, é narrada com uma frieza quase clínica que torna a irracionalidade do projecto colonial ainda mais evidente. A «cura milagrosa» de uma criança doente, que Magalhães usa como prova do poder do Deus cristão, é filmada sem julgamento explícito — e é precisamente por isso que julga tão duramente.
O filme coloca Portugal e a Península Ibérica em geral numa posição desconfortável — não de culpa performativa, mas de confronto com os factos. Numa época em que o debate sobre memória colonial é ainda frágil no discurso público português, «Magalhães» propõe uma leitura que não cancela a figura histórica do navegador, mas que recusa celebrá-la sem as suas contradições. Albert Serra, o cineasta catalão que co-produz o filme, tem o seu próprio interesse nestas tensões de identidade e poder. A co-produção entre cinco países com relações históricas complexas com a colonização não é acidental. O subtexto é denso: quem conta a história define o herói. Lav Diaz quis que fossem os colonizados a ter a última palavra.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
«Magalhães» é cinema independente na sua forma mais pura e mais exigente. Não é um filme para todos — e Lav Diaz seria o primeiro a dizer isso. Quem procura uma aventura épica com batalhas e grandiosidade visual sairá defraudado da sessão. Quem procura um cinema que trata os espectadores como adultos capazes de suportar o silêncio, de contemplar a natureza como linguagem e de aceitar que a História pode ser recontada de sítios inesperados, encontrará aqui uma experiência rara. A dimensão meditativa do filme — os seus planos longos, o seu ritmo deliberado, o seu relutante recuo face à espectacularidade — é também a sua maior recompensa.
O filme estreia esta quinta-feira, 18 de junho, no Cinema Nimas, na Avenida 5 de Outubro em Lisboa, com distribuição da Nitrato Filmes. É o cinema independente de referência de Lisboa onde «Magalhães» tem exibição, tornando cada sessão num acontecimento em si mesmo. Para quem está na cidade, é uma oportunidade de ver no grande ecrã uma obra que a Criterion Collection já reconheceu como merecedora de preservação permanente — um reconhecimento que pouquíssimas co-produções portuguesas alguma vez receberam. A crítica internacional foi entusiasta: o Screen Daily elogiou a cumplicidade entre Lav Diaz e o seu director de fotografia, e a Awards Radar considerou-o «o filme mais importante de Lav Diaz», uma afirmação notável numa carreira tão excepcional.
«Magalhães» chega a Portugal num momento particularmente oportuno. O debate sobre os Descobrimentos e o seu legado colonial tem ganho visibilidade pública, com narrativas históricas a serem revisitadas e perspectivas esquecidas a emergirem. Lav Diaz — vindo de um país que foi colonizado por Portugal (indirectamente, via Espanha) e pelos Estados Unidos — oferece uma perspectiva que nenhum realizador português poderia oferecer com a mesma distância crítica. O resultado não é um filme de acusação, mas de memória: lenta, dolorosa, necessária. No panorama do cinema de autor mundial de 2025, «Magalhães» é uma obra que recusa o conforto fácil e que fica connosco muito depois de as luzes se acenderem. Que um filme assim estreie em Portugal, distribuído pela Nitrato Filmes e exibido no Cinema Nimas, é, em si mesmo, um facto a celebrar.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados