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“A Sombra das Árvores no Inverno” de Carla Pais

Caminhar sobre os trilhos da esperança

Escrever como quem conhece o peso das ausências, a dor que instigam, mas também a forma delicada como os afetos conseguem, por vezes, remendar aquilo que parecia definitivamente perdido é dar esperança, cor, onde tudo parece cinza, escuridão e sombra.

É esse o caminho narrativo que Carla Pais ousa construir em A Sombra das Árvores no Inverno (Leya, 2026), romance vencedor do Prémio Leya 2025 e um exemplo de como a sobrevivência, o amor e a solidariedade podem ser escritos, relatados, confessados com rara elegância, sendo também ingredientes que ajudam a (re)descobrir os problemas sociais associados à migração, principalmente quando falamos de África ou Próximo Oriente.

A isso junta-se uma capacidade ímpar de impressionar pela ambição de uma história que se instala devagar, quase em silêncio, graças à beleza das palavras e à humanidade das personagens, assim como à forma subtil como se abordam alguns dos grandes dramas do nosso tempo, sem nunca perder de vista a dimensão íntima dos afetos.

A narrativa acompanha três mulheres – Céline, Aïsha e Nadia – cujos destinos cruzam-se através da guerra, do exílio e da necessidade de reconstruir vidas entre em ruínas. Em cenários marcados pela violência e pela intolerância, Carla Pais dá voz a personagens, a famílias (no início do livro está patente as árvores genealógicas das personagens…) que se recusam a abdicar da sua humanidade. São mulheres que conhecem o medo, a perda e a solidão, mas que encontram na amizade, no amor e na solidariedade formas de uma resistência incompreendido por muitos.

Apesar desse contexto, A Sombra das Árvores no Inverno extravasa a fronteira de uma “simples” história sobre refugiados ou sobre os efeitos do extremismo, dedicando-se sobretudo à capacidade de sobreviver. Sobreviver à dor, à ausência e às cicatrizes do passado. E fazê-lo através de pequenos gestos de generosidade, da construção de novas famílias e da descoberta de que a esperança pode nascer nos lugares mais improváveis, estejamos perante injustas sentenças, o ato heroico de querer ser pai no cenário de uma doença que obriga à perda dos membros inferiores ou acolher crianças refugiadas e abandonadas ao seu destino e à mercê da guerra.

É precisamente nesses atos de coragem que reside a força desta delicada narrativa de Carla Pais, um exercício literário que rejeita melodramas e aponta à contenção, confiando na delicadeza da linguagem o veículo de transmitir emoções profundas.

Estamos perante uma prosa que possui melodias próprias e um sentido de atenção que transformam as cenas mais quotidianas em momentos de grande intensidade, com os títulos dos capítulos a serem resgatados de frases-chave dos mesmos e cuja dinâmica “obriga”, por vezes, a entender os espaços e as ações “perdidas” à direita das frases como que em forma de reparo e ação.

Por outro lado, enquanto o livro cresce, a autora recorda-nos que os grandes atos de coragem raramente são espetaculares, podendo estar na capacidade de cuidar do outro, de acolher quem chega ferido, de continuar a amar quando tudo parece perdido. Disso brotam as sementes para uma confiança serena na bondade humana que nunca soa ingénua, porque nasce da consciência de que o sofrimento faz parte da vida, é uma consequência mais ou menos calculada da sequência dos dias, semanas, meses, anos.

Também por essa interpretação, A Sombra das Árvores no Inverno vai além do espectro de um romance sobre deslocação e perda, agarrando-se às possibilidades de recomeçar, e como a humanidade traduzida em atos de amor e solidariedade podem transformar o inverno, o inferno, mais duro num lugar onde ainda é possível encontrar abrigo. Basta acreditar.



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