«O Amor que Perdura» e a beleza impossível das despedidas sem fim
Pálmason filma a separação como um naturalista filma as estações — com paciência, atenção e uma estranheza suave que nos perturba longamente.
O islandês Hlynur Pálmason, um dos cineastas mais singulares do cinema de autor europeu contemporâneo, regressa com o seu trabalho mais íntimo e mais pessoal. «O Amor que Perdura» acompanha um ano na vida de uma família islandesa enquanto os pais atravessam uma separação, rodado ao longo de vários anos em película 35mm pelo próprio realizador, que também assume a câmara. O filme estreia esta quinta-feira, 25 de junho, no Cinema Nimas, em Lisboa — e é, sem dúvida, um dos acontecimentos cinematográficos do verão.
O ponto de partida: uma família a desfazer-se sob as montanhas da Islândia
O primeiro plano de «O Amor que Perdura» mostra um telhado a ser arrancado com esforço de uma casa. É uma imagem de uma violência contida, quase banal — e é também, desde logo, a chave de leitura do filme inteiro. Uma estrutura que se desmonta. Uma proteção que desaparece. A família que ali viveu não foi destruída por um drama súbito, nem por uma traição espetacular: foi corroída pelo tempo, pela distância, pela incapacidade de dois seres humanos habitarem o mesmo espaço emocional quando o amor muda de forma.
Pálmason situa-nos numa aldeia piscatória islandesa, em plena paisagem de glaciares e montanhas. Magnús, ou Maggi (Sverrir Gudnason), é pescador, passa longos dias no mar, e quando regressa já não sabe bem a que casa pertence. Anna (Saga Garðarsdóttir) é artista plástica, trabalha com metal e óxido, cria tapeçarias enormes na propriedade rodeada de cavalos e ovelhas. Já estão separados quando o filme começa — mas ainda não fecharam as fronteiras. Continuam a partilhar o espaço dos filhos, das refeições, das manhãs. Ainda às vezes dormem juntos. A separação é um processo, não um acontecimento.
Este filme nasceu de uma pergunta que Pálmason colocou a si próprio enquanto rodava a curta-metragem «Nest» — uma história sobre três irmãos a construir uma casa na árvore. O que estarão os pais deles a fazer? O que está a acontecer dentro de casa, fora de campo? A partir dessa intuição cresceu, lentamente, ao longo de anos, aquilo que seria «O Amor que Perdura».
A linguagem do filme: película, tempo e a câmara como pele
Hlynur Pálmason rodou em 35mm — e não como gesto nostálgico ou estético, mas como necessidade orgânica. A câmara é a sua extensão natural. Ao assumir ele próprio a direção de fotografia, Pálmason filmou este projeto como um pintor que vai ao estúdio todos os dias: com os filhos, com os amigos, com um olho sempre pronto para captar o instante fugaz em que as nuvens adquirem uma cor impossível, em que as bagas aparecem no mato, em que um animal faz um gesto que não pode ser repetido.
O resultado é uma textura visual que dificilmente se descreve com palavras. As imagens têm uma leveza e uma densidade simultâneas — como se o filme existisse naquele espaço liminar entre a memória e o presente. A luz é frequentemente dourada ou cinzenta, as composições têm uma quietude que se aproxima do tableau vivant, e há uma atenção aos corpos — dos adultos, das crianças, dos animais — que transforma o banal em sagrado.
O ritmo do filme é fragmentado, episódico, construído em forma de vinhetas. Não há arco dramático convencional. As estações mudam. Os filhos crescem. Maggi e Anna continuam a sua dança inconclusiva. E nessa recusa da narrativa linear reside uma das apostas mais corajosas do filme: Pálmason não quer contar uma história de separação. Quer capturar o que significa estar dentro dela.

As personagens e o que carregam
Anna e Maggi não são arquétipos do casal em conflito — são pessoas complexas e contraditórias, capazes de ternura genuína e de crueldade quotidiana. Anna surge como a mais estável dos dois: segura na sua identidade artística, capaz de reconstruir a sua vida com alguma solidez, mesmo que precise de reconhecimento que o mercado lhe nega. Há uma cena em que um marchand de arte entusiasmado a conduz a uma palestra interminável sobre vinho — e no final, não há lugar para ela na galeria. O desapontamento é filmado com uma crueldade serena.
Maggi é o oposto: um homem à deriva. Fora do mar, não sabe o que fazer com as mãos nem com o tempo. Continua a sugerir que podem ter uma vida sexual ocasional; Anna alimenta, por vezes, o pensamento de que seria mais fácil se ele estivesse morto. Este é o território emocional do filme — não a crueldade melodramática, mas a ambiguidade honesta de dois seres humanos que se amaram e que ainda não sabem o que fazer com esse passado.
Os filhos do casal — interpretados pelos filhos reais de Pálmason — trazem uma dimensão de urgência ao filme. O realizador captura-os no presente, sabendo que o tempo passará e eles deixarão de ser quem são agora. Há uma melancolia discreta nessa escolha, uma consciência de que o cinema pode congelar o que a vida dissolve. Panda, o cão de pastor islandês que ganhou a Palm Dog em Cannes, tem um papel tão essencial na dinâmica familiar que aparece com crédito próprio no início do filme.

O que o filme diz (e o que cala)
«O Amor que Perdura» pertence a uma tradição específica do cinema escandinavo: a de filmes que observam a vida familiar com a paciência de um etnólogo e a sensibilidade de um poeta. As comparações com Bergman são inevitáveis — a câmara sobre os rostos, os silêncios que pesam mais do que os diálogos, a convicção de que dentro de cada família existe uma cosmologia particular. Mas Pálmason não é um herdeiro sombrio de Bergman: o seu cinema tem o sentido de humor suave de Roy Andersson, a estranheza onírica de um Fellini nórdico.
Ao longo do filme, irrompem sequências fantásticas que não são sonhos nem alucinações, mas intrusões do inconsciente no real. Um galo gigante invade os pesadelos de Maggi. Uma espada cai do céu junto ao manequim medieval que os filhos montaram na falésia. Pálmason filma estas imagens com a mesma seriedade com que filma uma refeição em família — e nessa recusa em explicar reside uma das suas forças maiores. O filme não quer ser decifrado. Quer ser habitado.
Há também, subtextualmente, uma reflexão sobre o tempo e a identidade islandesa — sobre uma cultura isolada que se transforma rapidamente, sobre o que significa crescer num lugar onde o inverno pode durar meses e a natureza tem sempre a última palavra. A paisagem não é decoração: é personagem. O mar que separa Maggi da família é o mesmo mar que lhe dá sentido. As montanhas que rodeiam a propriedade de Anna são testemunhas silenciosas de tudo o que acontece — e que continuarão lá quando todos estes seres humanos tiverem desaparecido.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
«O Amor que Perdura» não é um filme para quem procura resolução. Não há reconciliação salvadora, nem ruptura catártica. É um filme para quem quer sentar-se na escuridão e deixar que o tempo de outra família se sobreponha, por um instante, ao seu próprio. Para quem acredita que o cinema pode capturar o que a memória distorce. Para quem já teve de reconstruir um amor que mudou de forma sem pedir licença.
Estreia esta quinta-feira, 25 de junho, no Cinema Nimas, em Lisboa, distribuído pela Alambique Filmes. O Nimas — uma das mais importantes salas de cinema de autor da capital — é o espaço perfeito para um filme desta natureza: um lugar onde o cinema independente encontra o público que merece.
Para quem conhece a obra anterior de Pálmason — «A White, White Day» e «Godland – Terra de Deus» — este é um mergulho mais íntimo e mais quente, sem perder a estranheza que define o seu cinema. Para quem o descobre agora, é uma porta de entrada generosa para um dos olhares mais originais do cinema europeu contemporâneo.
«O Amor que Perdura» é, no fundo, um filme sobre o que resiste. Não a relação, não a estrutura familiar, não as certezas — mas qualquer coisa mais difusa e mais essencial: a textura de ter partilhado uma vida, os gestos aprendidos, as manhãs repetidas, o amor que muda de forma mas não desaparece. Pálmason filma isso com uma paciência que o cinema raramente se permite, e o resultado tem a qualidade paradoxal das coisas verdadeiramente belas: perturba sem explicar. Fica. Num contexto em que o cinema de autor europeu procura encontrar novos modos de falar do íntimo sem cair na sentimentalidade ou na frieza calculada, «O Amor que Perdura» oferece uma terceira via: a da observação amorosa, rigorosa e aberta ao inexplicável. É cinema que se leva dentro.
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