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“A Última Casa em Needless Street” de Catriona Ward

Uma história onde tudo é verdade e mentira.

«Um romance enervante que conserva os seus segredos inacreditáveis até à última página […] Não lia nada tão bom desde “Em Parte Incerta”» Stephen King

É oportuno começar esta crónica à boleia deste apontamento de Stephen King (com direito a chamada de capa), dada a proximidade temática e formal que a escrita de Catriona Ward nos apresenta face à obra de King.

O leitor é levado a crer que sabe o que se encontra dentro da casa de aspeto sinistro. Acha que já leu esta história noutro livro ou noutro filme (e com efeito, o género de escrita abundantemente adjetivada e o tom sombrio do thriller, transportam-nos com relativa facilidade para ambientes cinematográficos identificáveis com cenas de “The Shinning” de Kubrick, ou “Psycho” de Hitchcock), para descobrir uma e outra vez que o palpite estava errado.

“A Última Casa de Needless Street” (Porto Editora, 2021) segue o desajeitado Ted e a sua leal companheira Olivia, a gata com um sentido de humor taciturno que adora ler a Bíblia e parece sofrer de transtorno dissociativo de identidade. Ele está desempregado, bebe muito e também sofre de alguns problemas de saúde mental não diagnosticados. Algo horrível pode ou não ter acontecido no passado de Ted. Na verdade, ele já foi o principal suspeito do desaparecimento de uma menina chamada Laura, porém a existência de álibi e a ausência de quaisquer provas acabariam por ilibá-lo dessa condição (pelo menos perante a justiça). Culpado ou não, acaba por sofrer algumas consequências fruto dessa desconfiança – ele é o pária da cidade e frequente vítima de vandalismo.

Ted também tem alguns hábitos estranhos, como sejam as visitas frequentes aos “deuses” que enterrou nas profundezas da floresta de bétulas (árvore osso).

Ted tem ainda uma filha chamada Lauren, que esporadicamente o visita e depois desaparece misteriosamente por semanas a fio. A sua relação é sempre tensa e frequentemente violenta. Ted e Olivia (os nossos narradores iniciais) evitam muito suspeitamente dizer ao leitor para onde ela vai, mas é claro que devemos questionar se Lauren poderia ser Laura.

 

nada em “A Última Casa de Needless Street” é o que parece

Um segredo indizível parece uni-los, mas quando uma mulher chamada Dee se muda para a casa da frente, procurando pistas para encontrar a irmã desaparecida anos atrás, o que está enterrado entre as bétulas pode voltar para assombrar as suas vidas.

Essa sinopse é curta e cobre apenas o básico. Também é inútil, porque nada em “A Última Casa de Needless Street” é o que parece. Ward é uma contadora de histórias habilidosa e torna-o evidente ao fazer uso de um talento peculiar, pelo qual sucessivamente nos leva a acreditar que desvendámos algo novo, mesmo depois de já nos haver revelado verdades que mudaram tudo anteriormente. Não obstante o referido, vários fatos importantes são-nos transmitidos com clareza desde o início: a irmã de Dee foi sequestrada em criança durante as férias e Dee está obcecada em encontrá-la; Ted é um solitário que vive numa casa em ruínas assombrado pelo fantasma da mãe; Dee acha que Ted sequestrou sua irmã. Dee é movida pela sua obsessão e parece estar de alguma forma no controle, mas a certo ponto essa imagem desintegra-se…

«Hoje o passado está próximo. A membrana do tempo dilata-se e estica-se. Ouço a Mamã na cozinha, a falar com a senhora do chihuahua. A Mamã está a contar-lhe a história do ratinho. Foi aí que tudo começou. Tapo os ouvidos e aumento o som da televisão, mas ainda consigo ouvir a voz dela. Lembro-me de tudo sobre a história do ratinho, o que é invulgar. Normalmente, a minha memória é um queijo suíço. […]

O miúdo dos sinais devia ter levado o ratinho para casa nesse fim de semana, mas não tinha vindo às aulas na sexta-feira. A mãe dele disse que ele estava constipado, mas toda a gente sabia que estava a fazer uma operação para tirar os sinais da cara. A questão era que ele não podia levar o ratinho para casa e o seguinte no alfabeto era eu. Bola-de-Neve, era assim que se chamava. O ratinho, não o rapaz.»

Com efeito, Ward usa narradores não confiáveis com grande perícia. Pois se por um lado, por exemplo, Ted recorda com clareza detalhes da sua infância, por outro lado ele também desaparece por dias a fio, parecendo ter perdido a consciência nesse entretanto.

«Estou de volta, com a força de um soco… sem fôlego, como se me tivessem dado um murro na barriga. Num punho fechado, seguro uma faca. É a faca grande que mantenho escondida no armário alto na cozinha. Ninguém sabe da sua existência além de mim. […] Vamos começar pelo básico. Onde e quando estou? Onde é fácil. Olho para a sala de estar. Tapete cor de laranja, colorido e alegre. A bailarina de pé, orgulhosa, no palco da caixa de música. Os furos no contraplacado são círculos cinzentos, cheios de chuva. OK, muito bem. Estou em casa, no andar de baixo. Quando é um pouco mais difícil. No frigorífico, está meio garrafão de leite, amarelo e azedo. Um frasco de pickles. Tirando isso é um espaço branco e vazio. No lixo estão latas vazias. Por isso, comi e bebi tudo enquanto estive fora. Mas fui surpreendentemente arrumado. A cozinha está limpa. Até me cheira a lixívia.»

Tudo em “A Última Casa de Needless Street” é velho, sujo ou partido. Idêntica adjetivação é aplicável à psique de seus personagens. A assustadora delapidação do mundo físico exterior reflete o estado mental dos personagens. Ninguém é quem parece ser, nem para os próprios. Ted, por exemplo, não é familiar para si mesmo:

«Eu tirei os espelhos da casa há alguns anos porque deixam Lauren perturbada. Mas não preciso de um espelho para saber o meu aspeto. As palavras dela ainda me ferem. Gordo horroroso. A minha barriga é um saco de borracha. Descai do meu corpo como se estivesse presa por correias. Estou a ficar cada vez maior. Nem tenho noção. Deito coisas ao chão, choco contra as portas, não estou habituado ao espaço que ocupo no mundo. […] O resto de mim… bom, tento nem sequer pensar nisso. Ultimamente tenho um odor terroso a cogumelos. O meu corpo está a virar-se contra mim.»

A atmosfera neste romance é escura, deprimente e a estranheza pode levar à confusão, mas a experiência é diferente de qualquer outra coisa, fazendo dela uma leitura obrigatória para quem gosta do tipo de narrativas labirínticas que nos tiram o chão debaixo dos pés e nos fazem cair num vazio apenas preenchido por dúvida e estranheza.

“A Última Casa de Needless Street” é uma história perturbadora, complexa e multifacetada, parecendo-se mais com um multiverso do que com uma cebola. O tempo é duvidoso e todos são erráticos. Há uma verdade que começamos a ver relativamente cedo, mas o terreno instável e os permanentes volte faces da narrativa, não nos deixam desvendar o mistério até ao último virar de página.



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