“As Luzes de Setembro” de Carlos Ruiz Zafón

“As Luzes de Setembro” de Carlos Ruiz Zafón

Na sombra do medo

Muitas vezes, o percurso de um escritor passa por diversos degraus de ascensão, algo inerente a uma evolução natural no que toca à metodologia da própria escrita como também à exploração e conceção contextual. O espanhol Carlos Ruiz Zafón não é exceção.

Foi em 2001 que o mundo se deixou encantar com “A Sombra do Vento”, o primeiro grande romance do escritor natural de Barcelona que foi um dos maiores sucessos literário das últimas décadas e ainda hoje subsistem na memória dos leitores ecos de encantamento de personagens como Daniel Sempere ou do maravilhoso “cemitério dos livros”.

Cerca de sete anos depois, surgiria “O Jogo do Anjo”, mais uma obra maior onde Zafón explorava, como poucos, ingredientes como a tragédia e o romance, com profundos toques góticos, onde o fascínio pelo universo literário era condição.

Mas antes destas duas obras, Zafón experimentou o género “juvenil” através da apelidada Trilogia da Neblina, um conjunto de três livros que contemplam “O Príncipe da Neblina”, “O Palácio da Meia-Noite” e o recentemente editado “As Luzes de Setembro” (Planeta, 2014).

Escrito entre 1994 e 1995, sob a edílica paisagem de Hollywood, “As Luzes de Setembro”, ainda que sem o propósito de assumir-se como uma sequela, segue o traço narrativo das duas primeiras aventuras mas assenta num espetro mais negro onde as referências ao sobrenatural, às “sombras” e ao gótico denotam claramente a evolução criativa do autor assim como servem de ponte para o que viria a acontecer com as tramas de “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”.

Depois de percorrer a costa sul de Inglaterra em “O Príncipe da Neblina” e sentir o fogo nas ruas de Calcutá em “O Palácio da Meia-Noite”, “As Luzes de Setembro” leva-nos até à brisa marítima da Normandia.

Na década de 1930, sob a paisagem veraneante da Baía Azul, Simone e os filhos Irene e Dorian vêm surgir uma oportunidade que pode mudar as suas vidas e afastar a dor da perda de Armand Sauvelle, marido de Simone e recente e tragicamente desaparecido depois de sucumbir à doença.

O destino levou a família até Cravenmoore, a mansão do enigmático Lazarus Jann, um construtor de brinquedos que se exilou de forma a cuidar da sua amada que padece de uma estranha e terrível enfermidade. No local jazem memórias, seres mecânicos e sombras do passado.

Bem perto, na ilhota do farol, brilham estranhas luzes entre a neblina e no bosque um ser demoníaco oculta a sua presença. Enquanto o mistério cresce, Simone, Irene e Dorian abençoam a sua nova vida e estão longe de saber que estão prestes a passar pela maior provação das suas vidas.

Excelente na criação dos seus personagens, Zafón presenteia o leitor com inúmeras referências de natureza mista entre elementos de sonho e pesadelo. Simone é o espelho da mulher que luta pela vida dos seus filhos e tenta recuperar a alegria de viver. Já os irmãos Irene e Dorian fazem da esperança a sua forma de existência.

Se o pequeno Dorian deixa enfeitiçar-se pela magia dos brinquedos de Lazarus, Irene tem na paixão por Ismael, um jovem lobo-do-mar fã de Orson Wells, a sua mais recente descoberta. A par destes, criações como Alma Maltisse e Andreas Corelli (demoníaca personagem depois recuperada em “O Jogo do Anjo) tornam mais sólida a narrativa de um livro que não pretende ser, convém sublinhar, uma sequela mas sim o fim de uma saga que foi sinónimo de um refinar da escrita de Zafón.

Mais negro e “adulto” que os dois primeiros tomos da Trilogia da Neblina, “As Luzes de Setembro” mostram a veia cinematográfica do escritor nascido na cidade condal e serve de base para o que estaria para nascer na mente criativa de Zafón.

Sem dúvida o mais interessante livro da referida trilogia, “As Luzes de Setembro” é uma obra recomendadíssima a todos, independentemente da idade.



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