“A Mulher Louca” de Juan José Millás

“A Mulher Louca” de Juan José Millás

Diário Pouco Secreto de Lúcidas Loucuras

Um dos mais brilhantes escritores da sua geração, o espanhol Juan José Millás deixa, a cada livro, uma marca profunda de uma genialidade que mistura a realidade objetiva e corriqueira com elevadas doses de surrealismo.

Com uma assinalável carreira enquanto jornalista e também escritor, o autor de livros como “O Mundo”, “Laura e Júlio”, “Os Objetos Chamam-nos” ou “O Que Sei dos Homenzinhos”, faz-nos agora chegar “A Mulher Louca” (Planeta, 2014), um dos mais aguardados livros do ano e, sem dúvida, um dos mais brilhantes.

Vencedor de galardões como o “Prémio Planeta 2007” ou o “Prémio Nacional de Narrativa 2008”, Millás é dono de uma escrita única, desconcertante e profundamente psicanalítica e “A Mulher Louca” eleva a narrativa ao expoente da fronteira (ténue) que divide realidade e ficção, possível e impossível, verdade e mentira.

Embrulhado em um sentido de humor cuja génese resulta de uma capacidade honesta de combater a dura realidade, seja ela alternativa ou não, “A Mulher Louca” é um livro diferente. Os seus personagens desafiam a lógica a cada frase, a cada conceito. O desejo de pertença é assinalável e o próprio autor não resistiu ao enredo. Millás vive nas páginas desta obra através de um desdobramento triplo: como autor, narrador e personagem.

No centro da trama está Julia, que mistura o trabalho em uma peixaria com o estudo autodidata da gramática. Fá-lo para entender a linguagem mas também porque quer entrar no mundo de Roberto, o seu chefe, e amante, filólogo de formação.

Nos intervalos da sua atividade, Julia, dedica os seus tempos livres a ajudar a cuidar de Emérita, uma doente terminal e na sequência de tal conhece Millás, o jornalista, que está a preparar uma reportagem sobre a eutanásia. Mas Millás, o escritor, vê em Julia o objeto perfeito de um romance. A braços com um terrível bloqueio criativo, Millás, a pessoa, refugia-se na cadeira de uma psicoterapeuta idosa.

É a realidade que assombra Millás, a pessoa, o jornalista, o escritor. As coisas tornam-se ainda mais complexas quando Emérita revela a Millás um segredo que guardou toda a sua vida. O que se assemelhava a uma reportagem mudou por completo durante as vistas a Emérita e o que era lógico torna-se absurdo e um dilema.

Ao longo do curto “A Mulher Louca” (apenas 190 páginas, para nosso descontentamento), Millás revela-se, expõem-se, arrisca-se. As metáforas concecionais são frequentes, assim como os delírios narrativos, as coincidências, os devaneios ou as interrupções (in)voluntárias da realidade.

Julia é, por exemplo, uma personagem cuja personalidade assume-se avessa. Alucina com a linguagem, ajuda palavras com problemas no seu consultório verbal. Deliciosamente saída da mente de Millás, Julia resulta da relação entre a literatura e a loucura, de um jogo criado em torno da dicotomia entre criatividade e rutura, características inatas à escrita do autor.

Millás consegue mesmo, com elevada distinção, abordar a insanidade de forma a extravasar os clichés do tema. A perceção da realidade é aqui adulterada e Millás é também ele uma “vítima” da narrativa assumindo uma personalidade tripla e bidimensional. Assistimos, deliciados, a uma fuga da banalidade do complexo narrativo simultaneamente com um processo intuitivo que busca forças e pertinência na inspiração e reflete (sobre) a criação literária.

Os desdobramentos pessoais, o carteiro analfabeto, o silêncio sem gramática, a enfermidade turística da existência, os senhores Porquesim e Porquenão, a morte assistida e uma certa intriga policial são outros componentes que somados ajudam a conseguir um todo que é sinónimo de um romance inteiro e imperdível pois “A Mulher Louca” revela o melhor de Juan José Millás, alguém que tem o condão de transformar a pura ficção em ficção pura.



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