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De bairrista suburbano a animal de palco

O Cão da Morte no Espaço Reflexo, Sintra. 3 de Julho de 2009.

Sintra, que fervilha de actividade e de turistas à luz do dia, mostra uma contrastante aparência de sossego aos olhos do transeunte naquela noite. No entanto, para os espectadores que se dirigem ao Espaço Reflexo – pequeno teatro nas imediações do emblemático Olga Cadaval – o caso muda de figura. Uma vila de ambiente fantasmagórico sob o ar húmido e abafado surge como o pano de fundo ideal para as composições d’O Cão da Morte, segredo (cada vez menos) bem guardado do cançonetismo em língua portuguesa.

De quem falamos, afinal? A resposta, embora sucinta, exige esclarecimentos: o odivelense Luís Gravito, aos 17 anos, é o cérebro por trás do projecto O Cão da Morte, mas não se resume à sua pessoa a actividade performativa do mesmo. Com EP homónimo disponível desde o início deste ano, a entidade, surgida em Outubro de 2007, existiu primeiramente como power-trio, em colaboração com Kris Alves e Nuno Pontes. Na actualidade, mantém-se como a expressão autoral de Gravito mas a sua vertente performativa vai para além do mero conceito do cantautor solitário, como se viria constatar durante o serão.

De forma muito pertinente, recai sobre o compositor João Coração, uma das vozes associadas à cada vez mais visível editora FlorCaveira, o papel de anfitrião. Perante uma audiência de algumas dezenas – a lotação da pequena sala quase completa, num ambiente intimista – o autor de «Muda que Muda» salienta as qualidades da lírica do protagonista da noite: a solidez e a precocidade da sua identidade, assentes num inegável amor à palavra escrita. E, sem mais delongas, dá-lhe espaço a que nos mostre do que é capaz.

As primeiras aparições apostam na economia de recursos para centrar a audiência na intensidade das palavras. Na penumbra da sala surge a figura franzina de Gravito. Barba e cabelo em desalinho, colete e gravata cuidadosamente amarrotados – como convém ao “bairrista suburbano” que encarna – e guitarra a tiracolo. As canções, movendo-se no território desbravado por Sérgio Godinho e José Mário Branco, mas sem desdenhar outras referências como uns Mão Morta ou uns Joy Division, convidam-nos a espreitar pelo buraco da fechadura do seu imaginário entre irónico e desgarrado: primeiro em «Esquecimento», reflexão sobre a paixão destrutiva (“Não vês que eu sou capaz/ que eu não sou doente/ que as facas são minhas amigas/ não tenho Sida/ acho eu, não sei”), logo a seguir em «Cantiga de Passeio», que evoca um desconcertante encontro romântico num cemitério.

Após este prólogo, é abandonado o formato a solo, e são gradualmente postas à prova as potencialidades cénicas das canções: «Maria Fica Um Pouco Calada», acompanhada ao baixo por Gustavo Andrade, reflecte, à semelhança da «Canção Retrospectiva», as perplexidades do sujeito perante o mundo labiríntico dos afectos; na anterior e em «Cantiga dos Pensamentos da Joana» – sarcasticamente apresentada como a sua composição de duração mais breve e título mais longo – pode falar-se dum verdadeiro manifesto contra os estigmas da adolescência, que ganha peso com a interpretação da banda completa (além de Andrade, o baterista Nuno Pontes e o teclista André Sebastião). A mesma formação interpreta, com um peso semelhante, «Valsa Esquizofrénica», uma breve passagem de Gravito pelo lugar de teclista, e «A Idade dos Gambozinos», com a electricidade que convém à descarga de bílis contida nestes retratos das relações humanas.

Como continuidade, um conjunto de três canções a meias com João Coração: o «Fado do Bolo Alimentar», gravado como lado b de «Muda que Muda», e neste espectáculo cantado em dueto seguido de «A Lenda dos Rouxinóis», que empresta à composição um colorido substancialmente mais folk que com a versão original em power-trio.

A terceira canção desta série de actuações, «Fruto» encerrando o alinhamento central, vive do diálogo entre a voz e a guitarra de Gravito e o kazoo tocado por Coração, sublinhando este último, com a sua estridência, a irreverência da letra: “E hoje que cheguei ao caroço/ penso na pele do teu pescoço/ na herege seguida de remorso/ no limoeiro da vizinha/ e acabamos no fundo do poço/ sem as roupas que despimos em alvoroço/ ainda somos fruta verdinha”. Uma escolha acertada para acender os ânimos da audiência e manter o entusiasmo no encore.

Regressando ao minimalismo com que fora iniciado, o espectáculo retoma o formato de voz e guitarra. As últimas canções, «O meu estômago» e «Tempestade» confirmam a impressão que percorre o ouvinte após algum tempo de confronto com o projecto: que a discreta, mas crescente atenção que lhe tem sido dada não é fruto do acaso, mas antes dum amadurecimento antecipado e muito promissor. Da toca suburbana do Cão espera-se que saiam, no futuro, mais surpresas entusiasmantes.



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