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“Nas Brumas da Noite” de Sandra Byrd

Identidades roubadas, desconfianças e corte

Este livro de Sandra Byrd, Nas Brumas da Noite (Topseller, 2018), é um romance com toques de suspense, vários mistérios para resolver e uma história de amor para encantar.

Byrd apresenta-nos uma história, contada na primeira pessoa, misteriosa, com toques históricos, e alguns ingredientes dignos de um romance gótico, tendo como personagem principal uma jovem de posses, filha de missionários na Índia, que viveu momentos de horror na altura da Rebelião, perdendo tudo e todos, sendo forçada a voltar, escondida, à sua terra natal e reclamar o que é seu; e um cavaleiro andante, representado pelo misterioso Capitão Whitfield, a quem a sociedade esnoba e as mulheres desejam.
Todas as personagens estão, de uma maneira ou de outra, ligadas aos mistérios que rondam a propriedade, e a morte suspeita da impostora.

Se o único benefício, em troca de me roubarem a pátria, era a segurança, decidi-me a agarrá-la, a mantê-la. A segurança teria de bastar, a paz e a felicidade, desconfiava-se, haviam-se sumido de vez, e eu não me arriscaria a perder a permanência da primeira para alcançar a inconstância das últimas.
O meu coração e a minha mente não sobreviveriam a outro golpe mortal.

Rebecca Ravenshaw, após um período perturbado na sua vida, onde perdeu os seus pais , missionários, foge da Índia, para sua própria segurança. Chegada a Inglaterra, dirige-se à sua propriedade de família, Headbourne House, apenas para descobrir que, aparentemente, já tinha aparecido por lá e, no entretanto, reclamado a sua casa e as suas posses, tendo-se, recentemente, suicidado.

Haverá mesmo alguém a cobiçar-me a casa e a herança? A humidade da primavera agarrou-se a mim e estremeci, mas afastei-a com um lenço.

Uma impostora, de carácter sociável e aprazível, segundo muitos, aproveitou que as notícias davam conta da morte de toda a família Ravenshaw, e apoderou-se de tudo o que lhe pertencia. Agora todos duvidam da veracidade das afirmações de Rebecca, pois acreditam que é ela, quem está a tentar usurpar a identidade da pobre alma que jaz no cemitério familiar.
Eis, então, que Rebecca trava conhecimento com o elegante, charmoso, mas desconfiado, Capitão Luke Whitfield, o agora herdeiro dos Ravenshaw.

Ele não acreditava em mim. Ninguém acreditava. Todavia, por alguma razão, estava disposto a deixar-me viver na casa, enquanto se retirava para o chalé. Seria cavalheirismo? Talvez. Porém, era solícito, embora fosse a pessoa que mais tinha a perder com a minha alegação. Eu trataria de descobrir porquê.

Whitfield, tendo já tido uma experiência, algures estranha, com a primeira Rebecca Ravenshaw, expõe a ‘nova’ Rebecca a uma série de testes ocasionais, que pouco a pouco, vão esclarecendo a verdade. Satisfeito, confirma que esta é quem diz ser, e cede às evidências. Como tal, passa a residir no chalé, enquanto não encontra outra residência, deixando-lhe a casa, toda para ela.

(…) Em contraste com a música e os risos do andar de baixo, o corredor escuro pulsava num silêncio curioso. Os tapetes eram quase invisíveis no soalho, as paredes do corredor pareciam inclinar-se estranhamente. Abanei a cabeça e pestanejei para limpar a vista. Ao longe, num recanto, vi o cintilar de uns olhos.

Seguindo, os planos originais, anteriores à chegada de Rebecca, e com o seu consentimento para fazê-lo, Whitfield oferece algumas festas de verão em Headbourne, onde esta é apresentada à sociedade, como a verdadeira Menina Ravenshaw.
Entre aqueles que inicialmente duvidaram das suas afirmações, encontravam-se agora, pretendentes à sua mão, interessados na bela herdeira, e nas suas posses.
Será um, contínuo, jogo de sedução e manipulação, para todos os envolvidos.

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De súbito, compreendi. Ninguém me iria dar a minha casa, a minha propriedade, o meu dinheiro. Se eu quisesse o que era meu – a minha herança, e só a minha, a minha segurança, em que nenhum homem podia tocar a menos que eu me casasse, e que significava tudo para mim -, teria de o reinvidicar. Quarto a quarto, conta a conta, jardins, arrecadações, estábulos.

Deixando de lado, o seu lado mais frágil, e já recuperada da malária, toma o seu destino nas mãos.
Porém, há algo mais, ou melhor dizendo, alguém mais, que a prende a Headbourne. O tempo que passa ao lado do Capitão, leva a que se desenvolvam sentimentos amorosos, aparentemente, que a animam e, ao mesmo tempo, a perturbam.
De acordo com as intrigas, é sugerido que o Capitão poderá ter tido algo que ver com a morte da anterior Menina Ravenshaw, com o propósito de obter a casa, algo em que ele nunca negou ter interesse.
A sua mente instiga-a a ser prudente e a tentar descobrir a verdade, o seu coração quer que ele seja inocente.
Caberá a Rebecca desvendar este mistério. Mas como um problema nunca vem só, existe outro empecilho à sua possível ligação com Luke, a Menina Dainley, uma jovem de boa família, muito bonita e elegante, que não parece estar disposta a desistir de casar-se com o Capitão.

Conseguirá Rebecca decifrar o mistério sobre a identidade da impostora e a sua morte suspeita, antes que sofra o mesmo destino da usurpadora? Terá ela, realmente, o carinho de Whitfield ou será esta, só, uma manobra para obter a sua herança?

Avistei a minha casa – em mau estado, mas imponente, meio devorada pelo matagal, mas esplêndida. Creio que era a primeira vez que a contemplava e pensava: o meu lar. Headbourne era uma criança carente, há muito negligenciada, precisada de amor e de compromisso, e eu encontrava-me agora preparada para isso, sem reservas.

Nas Brumas da Noite, de Sandra Byrd, é um romance delicioso, num contexto histórico polémico, em meio a uma sociedade intransigente e mercenária, onde as mulheres ainda eram encaradas como mercadoria, e onde a personagem principal demonstra ser detentora de mais coragem que muitos homens. Suspense, momentos de romance e um mistério para decifrar, são vários dos ingredientes que tornam este livro interessante.



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