“Audição” de Katie Kitamura
Até ao cair do pano, uma estranheza sem nome.
Por vezes, um romance pode não contar apenas uma história, mas seguir um caminho mais inquietante, como questionar a própria possibilidade de conhecermos verdadeiramente aqueles que amamos, e a nós próprios.
Audição (Alfaguara, 2026), da norte-americana Katie Kitamura, livro finalista do Pulitzer e nomeado para o Booker Prize, faz isso mesmo e em cerca de 170 páginas cria um sofisticado labirinto que tem no centro da narrativa três personagens: uma atriz de meia-idade sem nome; o seu marido, Tomas; e Xavier, um jovem cuja relação com o casal parece mudar constantemente.
É precisamente nesta (surreal) relação triangular que reside a força deste livro cujo complexo enredo dá origem a um jogo de espelhos onde cada personagem parece existir em múltiplas versões, obrigando a questionar aquilo que (se) vê e o que (se) julga compreender.
A protagonista é atriz, mas a profissão funciona aqui como metáfora, pois em Audição, todos representam um papel. Ela, a atriz, é esposa e mãe de artista; Tomas, encena a estabilidade conjugal; e Xavier surge como elemento desestabilizador, umas vezes estranho, outras familiar e/ou filho, outras ainda enigma. Essa metamorfose que edifica a relação entre os três transforma-se continuamente, como se cada um estivesse permanentemente em processo de audição para uma identidade diferente.
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Uma das nuances mais interessante deste livro é que Kitamura não está na disposição de entregar respostas fáceis. Xavier, por exemplo, é o paradigma do terceiro vértice numa relação familiar, mas também figura que expõe as fragilidades do casal e as suas zonas obscuras da memória. A sua presença obriga a narradora a confrontar-se com aquilo que sabe, ou pensa saber, sobre si própria. Por sua vez, Tomas surge como antagonista e personagem presa às narrativas que construiu para sustentar a vida em comum.
No fundo, Kitamura explora a instabilidade das relações humanas cresce como reflexão sobre identidade, performance e perceção, onde a fronteira entre realidade e representação se torna cada vez mais difusa.
Apesar da estrutura desafiante, Audição consegue ser uma obra profundamente emocional, nunca colocando em causa “apenas” quem são estas personagens, mas o que acontece quando percebemos que as pessoas mais próximas podem permanecer, em certa medida, desconhecidas, e a intimidade, além de não eliminar o mistério, torna-o mais perturbador, seja o cenário um restaurante conhecido ou uma casa onde uma secretária é obstáculo sentimental.
A escrita elegante de Kitamura é o elo que tudo une, cuja precisão e tensão psicológica, mergulha o leitor numa vertiginosa interpretação dos papéis que desempenhamos na vida quotidiana, questionando a linearidade das relações humanas, impondo a dúvida se, na realidade, seremos em parte estranhos uns para os outros.
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