O livr-o-mem

“O livr-o-mem – Paulo d’ Cantos n’ Palma d’ Mão” | Vários

O homem que viu o futuro e voltou para editar livros

No universo musical, criou-se a figura do homem dos sete instrumentos para designar alguém que, a par de uma queda – grande ou pequena – para a música, apresenta um apreciável jogo de cintura e uma imensa coordenação motora capazes de montar, do nada, uma mini-orquestra.

Paulo de Cantos não era músico, mas fez da sua vida uma orquestra de sonhos e ocupações. No texto de introdução a “O livr-o-mem – Paulo d’ Cantos n’ Palma d’ Mão (atelier barbara says…, 2013), um livro dedicado à descoberta da sua obra, descreve-se desde logo uma vastidão de interesses: «Colecionador de cursos e de verbetes. O polímata, filósofo aglutinador de postais, de quadratins, de orlas e guarnições topográficas, entomólogo de pequenos insectos-livros, viajou o mundo à procura desta espécie-rara de publicação para míopes.»

Paulo Cantos (1892-1979) fez de tudo um pouco. Deu aulas, foi editor, uma espécie rara de designer – olhado com desdém pelos «congéneres do design gráfico nacional» – e um filantropo de coração, que chegou a mandar plantar árvores em Lisboa. Fundou o Centro de Profilaxia da Velhice na sua própria casa e criou também a Bibliarte, um alfarrabista frequentado por Fernando Pessoa e Cesariny, entre outros vultos. Mas foi também um inventor em potência, faceta ilustrada pelo modelo do corpo humano que construiu em tamanho real, e que se abre como um móvel revelando ossos humanos que simulam um esqueleto. Daí a expressão “o livr-o-mem” assentar, que nem uma luva, a este homem e a esta edição.

A partir da segunda década do século 20, Paulo de Cantos entrou num ritmo de edição como se não houvesse amanhã, lançando opúsculos, conjuntos de postais, manuais didácticos e livros em que os temas iam da geografia à anatomia, da matemática ao folclore. A grande inovação para a época foi a da composição tipográfica, onde nas páginas surgiam desenhos, mapas e outras brincadeiras – livros que se liam nos dois sentidos, só para dar um exemplo – que se revelaram um trabalho de vanguarda. Como se, por acidente, Paulo Cantos tivesse descoberto um Delorean, viajando em direcção ao futuro para regressar com a missão de editar livros que, para os seus pares, eram quase objectos literários não identificados.

Bastante singular foi o ter criado uma língua própria, antecipando-se a qualquer acordo ou desacordo ortográfico. Depois de uma viagem ao Brasil em 1965, o autor decidiu unir a grafia dos dois países, um pouco por derivação musical, naquilo a que deu o nome de PAK. Eis um modernista com um grande sentido de humor que, estranhamente, permaneceu desconhecido e com uma certa aura de mistério à sua volta, algo que este livro ajudará a mudar.

O livr-o-mem – Paulo d’ Cantos n’ Palma d’ Mão” reúne textos de diversas personalidades que o conheceram – ou que investigaram o seu legado – mais de perto, apresentando uma bio-bibliografia do trabalho que se conhece até à data. Na sua impressão foram utilizadas várias técnicas, desde o offset para o miolo à tipografia para as zincogravuras cedidas pela família de Paulo de Cantos, tornando-o num objecto fascinante que apetece folhear e fazer festas com os dedos.  Muito provavelmente, este livro irá levá-lo numa viagem insana aos alfarrabistas do Bairro Alto e arredores, em busca de algumas das preciosidades deixadas por Paulo de Cantos.



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