Vodafone Paredes de Coura | Dia 1 (12.08.2026)
Texto por Beatriz Veloso e fotografia por Rui de Freitas.
Ao som de Joana Alegre e sob um sol que queimava arrancou esta quarta-feira (16) a 32ª edição do Festival Vodafone Paredes de Coura no palco beira rio de sempre: Jazz na Relva. Decorado com as cores verde tropa da marca pleno que, aproveitando-se do calor que se fazia sentir aquela hora da tarde, convidava os festivaleiros — que já haviam estendido as toalhas — em frente ao palco a entrar no jogo, girar a roleta e esperar que a sorte lhes trouxesse a tal bebida prometida.
Enquanto isso Joana Alegre na companhia de André Santos na guitarra apresentava um momento intimista e descontraído que aquecia os ouvidos ainda “espapaçados” devido à temperatura, como caracteriza a artista, para a noite que se esperava no habitual recinto com nomes como Wet Leg (o espetáculo cinzento), CMAT (a grande surpresa) e Kneecap (o momento esperado que entregou o que a expectativa prometia).
Mas comecemos pelo início que aqui em Coura é sempre da melhor forma: junto ao Taboão onde se repetem saltos para o rio dignos de competição e onde a as horas passam devagar. Foi neste cenário sempre idílico que o concerto de estreia da ex participante do The Voice (2020) no palco Jazz na Relva teve início. Um momento musical que se queria “orgânico”, assim como conta Joana Alegre à Rua de Baixo após a atuação, e que procurou “prender as pessoas à mensagem de cada canção”. Entre a poesia musicada, os mergulhos e a música satírica (na dose certa) da artista, como é exemplo o novo single “Na minha Concha” do álbum de originais “Néctar”, proporcionaram-se momentos de descoberta e reconexão. Mais momentos virão em setembro com o lançamento do próximo single deste novo álbum, revelou Joana Alegre.
Ainda no mesmo palco seguiu-se Henrique Janeiro que transitou a vibe mais introspectiva que Joana Alegre deixou, num som ritmado que conquistou as palmas e os assobios do público que não tardou em dançar ao som da guitarra, da bateria em tom de crescendo e do teclado — que se fazia ouvir nomeadamente pelos efeitos sonoros que pintavam a cena — nos momentos mais pausados.
Houve tempo para três novas canções do novo disco “Reticências”, estas que criadas a reboque do eclipse solar não podiam fazer melhor pandã com este primeiro dia onde se repetia mais tarde o fenómeno — e assim como diz a letra “em dia de eclipse eu volto”. Janeiro voltou e com ele trouxe convidados que integram os novos temas, entre eles IRMA que muito bem explicou o sentimento de estrear em palcos do Couraíso: “é como quem estreia as músicas em casa. É esse o sentimento, estar em casa”, reflete IRMA ao subir ao palco.
Com o término da programação junto ao rio os corpos já aquecidos movem-se então para o recinto do festival propriamente dito, em direção ao palco secundário “Coura Sem Paredes” onde já se vê e ouve as paisagens sonoras das guitarras dos Miramar. Este foi um momento acústico calmo que chamou algum público para apreciar a mistura de cordas elétricas, acústicas e portuguesas de Frankie Chavez e Peixe (dos Ornatos Violeta e Pluto).
No palco principal quem abre são os “britainicanos” (nome que faz juz às influências americanas na música deste recente quarteto britânico [2023]) Westside cowboy que conseguiram reunir uma frontline bastante empolgada que foi soltando assobios e aplausos a cada vocal da também baixista da banda, Aoife Anson O’Connell. Quanto mais nos afastávamos do palco mais se desfazia a multidão numa espécie de degradé de emoções humanas até ao cimo do vale onde as toalhas dos mais quietos se estendem para melhor contemplar estes primeiros concertos de fim de tarde.
A verdade é que os festivaleiros ainda estão a chegar ao recinto e sem pressa. Por isso, cabe o papel de anfitriões aos artistas que estão a abrir os palcos e que, de forma muito bem conseguida, asseguram o bom ambiente.
O prémio de melhor cenário vai definitivamente para os artistas que se seguiram no palco Vodafone. Numa sala de ensaios bordô muito reconfortante First Breath after Coma e Salvador Sobral juntaram-se para nos presentear com um concerto-teatro intimista e surpreendente que comprovou o que todas as outras salas do país que já receberam o projeto “A Resistência” presenciaram. Quem passava no lado de fora do recinto não imaginava o momento que se vivia no palco principal, o som mal se ouvia cá fora, contudo, o conceito assim o exigiu.
Todos em vestes brancas faziam pianos e guitarras cantar os temas que juntos construíram durante 15 dias, um prazo extremamente apertado que podia ter tudo para correr mal mas que se tornou numa das principais razões do sucesso que se constata neste palco. A intimidade, os encontros e desencontros e os momentos mais banais foram a alma deste projeto que se montou de uma forma muito orgânica, apesar da ansiedade provocada pelos timings, e que naturalmente se manifesta numa relação calorosa entre o público e o palco.
De óculos postos os festivaleiros dividiam a atenção entre aquele concerto conceptual e os ecrãs laterais que exibiam o momento em que a lua e o sol se aproximavam cada vez mais até atingir o ápice. A juntar-se à sala de ensaios do palco Vodafone uma luz cinzenta encobria os raios de sol e pintava o ambiente num tom melancólico cada vez menos saturado que criava sombras icónicas: é o eclipse a acontecer. Foi de certeza um momento que vai ser recordado com especial carinho por todos os presentes.
Talvez tenha sido também por causa deste momento, que não voltaremos a viver por cá, que salvador Sobral se sentiu contagiado pela emoção. O artista não conteve as lágrimas ao chegar ao fim do tema “O quarto da Aida” e prometeu: “neste quarto eu vou ficar enquanto Coura me deixar”. O público respondeu de pé em uníssono numa salva de palmas reconfortante de quem percebeu o sentimento. Sobral retroca com um pedido de desculpas pela pouca interação com o público, afinal precisou de respeitar o “conceito do espetáculo”.
Após um momento que misturou arte, música, teatro e fenómenos astrológicos a atenção volta-se para o palco Coura Sem Paredes onde já estão preparadas as Horsegirl. Acorrem as pessoas a este espaço dividindo-se em dois grupos: aqueles que se dirigem ao merchandising ali, ao lado do palco, instalado, enquanto os restantes se acumulam em frente às três artistas vindas de Chicago que já deram início ao momento. Numa mistura de sons característicos do indie rock, do noise pop e do post-punk deram-se a descobrir ao público num concerto que se pode descrever como constante. Sem grandes contrastes o concerto seguiu-se.
Chega então um dos grandes momentos da noite protagonizados por CMAT, sem dúvida o melhor concerto da noite a par de Kneecap. Entram em palco ao som das Doce, assim como iriam terminar, com um corte abrupto para a voz aguda de Ciara Mary-Alice Thompson que harmoniza na perfeição as expressões faciais exageradas (no ponto certo). Num palco agora decorado de vermelho vivo onde todos os membros exibem um estilo característico, a banda irlandesa dá início a um concerto extremamente visual onde muito se dançou e interpretou, interagiu e bebeu (de penálti!). Violino e teclados ouvem-se entre os coros com fundo de bateria e guitarras, pelo meio, momentos que nos fazem regressar aos tempos em que o Tik Tok tinha outro nome e o Mannequin Challenge era febre, podíamos dizer que estávamos a ver um videoclipe ao vivo de hora e meia.
“O eclipse é isto”, afirma a vocalista (sim, voltamos a ter um eclipse) enquanto se observa a representação romantizada do momento que se viveu horas antes, agora interpretado pela violinista e o guitarrista da banda do momento em que “lua e o sol se beijaram”. Em síntese, CMAT quis mostrar que “o amor é a única merda que importa”, a mote perfeita para o grito uníssono que em muitos concertos se vai voltar a repetir: “Free, Free Palestine!”.
O concerto estava terminado e o público imenso ainda em êxtase correu pra o palco secundário onde já cantam os Capitão Fausto. A esta altura o recinto está mais do que cheio, perdermo-nos no meio da multidão é um exercício quase inevitável.
Wet leg, um dos grandes nomes da noite, seguiram-se no palco principal. Houve moshs que se repetiram ao som indie da banda britânica, não estivéssemos nós em Paredes de Coura. O público vibrou, especialmente lá na frente onde se reuniam os fãs, às 23h33 deram o famoso “maior grito” da noite enquanto “surfavam” festivaleiros na multidão gigante que se formou para assistir ao concerto. Sem dúvida foi um gig muito bom, mas antecedido pelo espetáculo de luzes e cores vibrantes com que nos deixou CMAT, o contraste com a luz branca e o fumo que se mantiveram inalteráveis durante todo o concerto, acabou por nos deixar com um sentimento de que algo estava em “falta”, traduzindo-se num momento visualmente monótono.
A fechar a noite do primeiro dia do festival Kneecap, como não deixaria de se esperar, deu um concerto turbilhão onde o hip-hop irlandês, a eletrónica e o ativismo político foram os traços de um espetáculo frenético. Desde a primeira música o chão tremeu e não parou até ao fim. Houve mosh pit para aquecer logo no início e o crowd surfing tomou conta do recinto. A energia foi de tal forma avassaladora que mesmo o público mais distante do palco tinha dificuldade em não tirar os pés do chão. Com o palco a vibrar sob um espetáculo de luzes eletrizante e projeções de imagens distorcidas com efeito de interferência e tons psicóticos, o concerto correu a uma velocidade surreal. Entre batidas saltitantes de eletrónica, pessoas de máscaras, óculos escuros e o DJ a misturar-se no meio da multidão, a energia contagiante do álbum Fine Art deu, mais uma vez, asas aos pés dos festivaleiros, impossibilitando por completo sentir-se o frio que já se sentia.
A essência combativa do grupo fez-se presente em todos os momentos com referências à língua irlandesa e ao combate contra o colonialismo. A bandeira da Irlanda destacou-se com orgulho no meio do recinto, mas foi o grito de solidariedade internacional que falou mais alto. Sem rodeios, o trio lembrou ao público: “Nós usamos esta plataforma para dizer aquilo que acreditamos ser o correto”, a reafirmação de um compromisso político e social característico. O espetáculo encerrou sob uma mensagem inequívoca de apoio à causa palestiniana (Free Palestine), consolidando uma hora inesquecível de pura entrega, consciência e celebração coletiva no universo Kneecap.
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Leiam aqui as reportagens do segundo, terceiro e quarto dia do festival.
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