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“Sete Anos Entre Nós”, de Ashley Poston

E se encontrasses a pessoa certa para ti, mas no momento errado?

É à volta desta premissa que se desenvolve o enredo de Sete Anos Entre Nós, de Ashley Poston (Singular, 2025).

Sete Anos Entre Nós, é um standalone, que também serve de sequela ao O Amor não Morreu, onde encontramos personagens conhecidos imiscuidos nesta nova história, com personagens completamente novos. Ambos os livros pertencem ao mesmo universo.

Às vezes, as pessoas de quem se gosta deixam os entes queridos a meio de uma história.

Às vezes, partem sem se despedir.

É uma história regada a humor, com uma picardia saudável, que aborda o crescimento pessoal, o luto, as mudanças e muito amor, já para não falar da comida mencionada que deixa água na boca.

Uma leitura com a qual alguns leitores se poderão identificar, que os atira para um mar de emoções, ao mesmo tempo que testemunham o nascimento e desenvolvimento de uma relação saudável, certa, mas começada no momento errado. Ou será que era realmente o momento errado?

Tudo acontece por um motivo e aquele apartamento tem um dom, o dom de trazer aqueles que os moradores mais necessitam, na altura mais inesperada, mesmo que separados por sete anos entre eles.

Poston usa uma forma fluída, doce e terna, polvilhada a pimenta, na sua escrita. O enredo tem um misto de tons, cheiros e sabores. É um mix de tom cómico, esperançoso, com um toque de tristeza e amargura, consegue invocar a presença dos que estão ausentes como se estivessem mesmo ali ao lado, joga com diferentes linhas temporais, apresenta-nos personagens presentes e passados, ao mesmo tempo que notamos a sua clara evolução/crescimento ao longo do enredo.

Poston, criou duas pessoas, que transbordam química, que foram moldadas pelo tempo, pelas suas experiências, quer dentro do apartamento mágico, quer na vida fora do apartamento, até se transformarem em quem realmente são. Pessoas, que apesar das claras diferenças entre o eles do passado/presente, entre as suas partes positivas e negativas, não conseguiram soltar a mão um do outro, que apesar dos receios, ganharam coragem para seguir adiante, juntos.

Falemos, então, dos personagens principais da obra.

Clementine, esforçada, impulsiva, que encerrou o seu coração a sete chaves e se esqueceu de perseguir a lua. Alguém com um extremo receio de mudanças, que prefere a rotina a experimentar algo novo.

As experiências que teve mais fora da sua zona de conforto, foram as viagens que fez com a tia pelo mundo.

A sua tia Analea, a proprietária do apartamento, tinha uma necessidade de ser livre, pois receava perder o que mais gostava caso se apegasse, e de uma forma, passou esse temor à sobrinha, quando lhe impôs duas regras dentro do seu apartamento mágico: descalçarem-se sempre à entrada e não se apaixonarem lá dentro.

Para quem não apreciava mudanças, o mundo de Clementine deu um giro, quando a tia morreu e lhe deixou o apartamento de herança.

Agora, todos os dias, Clementine vive das memórias que tem com a tia, naquele apartamento, num estado de luto perpétuo no qual Clementine nem está bem ciente de estar.

Ao longo da história dá para notar uma revolta latente, em relação à tia, por ter desistido e a ter “abandonado”.

E como é que Clementine nega sentir essa perda? Enterra-se no trabalho, encerrada a tudo o que é novo, perdendo mais e mais o brilho e a vontade de viver, limitando-se a ser, a sobreviver no dia-a-dia.

Já não sente o mesmo apreço pela carreira, como antes, as relações não funcionam, e ela já nem se lembra quando foi a última vez que foi, ou quando foi, verdadeiramente feliz, realmente ela mesma. Pior, ela lembra-se de laivos de felicidade de quando viajava e partilhava momentos com a tia, apenas para ter o seu mundo pintado a negro, com o peso da sua ausência.

Vês, querida?  Podes planear tudo na vida, e, ainda assim, serás apanhada na curva.

O que nos traz a Iwan, o jovem de cabelo acobreado despenteado, olhos cinzentos claro, e sardas nas bochechas, que nutre um amor enorme pela culinária e tem um sonho a cumprir. Filho da amiga da tia, aluga o apartamento no Verão e encontra a mulher mais inesperada à sua frente. Uma mulher que está prestes a expulsá-lo do local que alugou, mas que por algum motivo o faz querer ficar, de pedra e cal.

E claro, o apartamento mágico, o herói não cantado, o cupido disfarçado, que encontra as caras-metade, mesmo que estas se encontrem a sete anos de distância. O seu único senão, é que nenhum dos protagonistas pode sair dele, senão voltam à sua timeline original, um sem o outro, sem saber quando ou se se voltam a encontrar. Ninguém disse que apaixonar-se era fácil, não é?

Mas é ele a testemunha direta do desenvolvimento da relação entre Clementine e Iwan, com um início meio atribulado, que se desenvolveu gradualmente numa sensação de domesticidade e familiaridade, embora precária, é ele que propicia os reencontros que sabem a uma boa comida de conforto, onde eles facilmente recomeçam de onde pararam.

Porém, enquanto o Iwan do passado, se apaixona pela Clementine do presente, a Clementine do presente encontra-se frente a frente, e de forma bem inesperada, com o Iwan do presente. Alguém alterado pelo tempo e experiências da vida, em especial pelo que viveu no apartamento. Um Iwan que Clementine sente já não ter o mesmo brilho, embora mantenha o mesmo charme.

Não é estranho como o mundo funciona, às vezes? Não é uma questão de tempo, mas de ser a altura certa.

Sete Anos Entre Nós, de Ashley Poston, é simplesmente perfeito, agridoce, como uma boa dentada numa tarte de limão. Abrange temas desde destino, linhas temporais diferentes mas convergentes, uma história de amor aparentemente fadada à tristeza e separação, mas com todos os ingredientes certos para seguir adiante, mãos nas mãos, e olhos pousados num futuro pintado a amarelo limão.



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