Yiyun Li

“Tudo na natureza apenas continua” de Yiyun Li

Seis anos, quatro meses, dezanove dias

O suicídio é um tema fraturante, devastador. Uns defendem tratar-se de um ato de coragem; outros remetem para a cobardia. Pontos de vista à parte, lidar com essa avassaladora realidade é uma experiência limite que testa a coragem e a resiliência. E quando se enfrenta a morte de um filho, neste caso dois, o sofrimento tende a obliterar quaisquer réstias de esperança.

A primeira vez que deparei com relatos de figuras públicas sobre a perda de dois filhos – eu, pai de três rapazes, fiquei apavorado só com a ideia remota de isso acontecer –, foi aquando dos relatos de Nick Cave, figura maior do universo da música das cinco décadas. Na altura, bebi as suas palavras numa tentativa de solidariedade, sem nunca perceber o que se sente nesses casos.

Agora, regresso ao tema através de Tudo na natureza apenas continua (Alfaguara, 2026), de Yiyun Li, livro que deixa uma marca profunda e faz entrar num exercício de resistência íntima, sem, no entanto, requisitar empatia, embora imponha uma dedicação extrema, no sentido de que todas as palavras devem ser, além de lidas, sentidas e guardadas.

Graças a uma escrita em aberto, não estamos apenas, palavra importante, perante uma reflexão sobre o luto, mas uma obra que o habita. A partir da morte dos dois filhos, Vincent e James, cujo intervalo temporal é título deste texto, Li partilha um testemunho que recusa a dramatização fácil, optando por uma contenção quase clínica, o que, paradoxalmente, o torna mais devastador e sem objetivos de catarse. É, no fundo, uma tentativa de «honrar vidas e aceitar perdas inimagináveis», sem trajetos de reconciliação evidente.

O que distingue este livro de outros exercícios que versam a memória é como se desloca o centro da narrativa. A morte, por suicídio, não é tratada como um ponto final, mas antes uma tentativa de reorganização do tempo.

Apesar da vida continuar, faz-se de uma forma estranha, quase mecânica, onde o quotidiano se torna simultaneamente banal e insuportável. Li, professora de Literatura e autora de outros livros que lhe valeram o reconhecimento da crítica ganhando vários prémios internacionais, sublinha que a coexistência entre a ausência absoluta e a persistência das rotinas é «viver ao lado do sofrimento», no «fundo do abismo».

Há também uma dimensão intelectual que afasta o livro de leituras mais sentimentais, e à boleia de reflexões de obras de, por exemplo, Shakespeare, Camus e outros, Li escreve com uma lucidez quase implacável, recusando explicações fáceis, inclusive sobre o suicídio dos filhos, recorrendo a estratégias aliadas a memórias, objetos e pensamentos, que apelida «marcadores de lugar», seja isso fotografias ou objetos de Vincent e James.

Tudo na natureza apenas continua insiste numa ideia desconfortável: a de que o amor não resolve tudo, e que compreender pode ser mais importante do que consolar. É um posicionamento que ajuda a encarar o indizível sem o simplificar.

Esse caminho é formalmente a maior assinatura de Li quando recorre a uma linguagem depurada, precisa, quase austera. Cada frase está livre de excessos, dizendo o necessário. Tal serve de fronteira entre pensamento e emoção, explorando a ideia de que sentir profundamente nem sempre implica expressar em “excesso”, no sentido de exteriorizar um sentimento.

Yiyun Li não procura de respostas nem parece interessar-se por isso. O que oferece é uma matemática cuja equação junta perda, sem a resolver, e a tentativa de dar estrutura ao que não tem forma. Ter noção que Li sabe tudo isso, torna a leitura em algo perturbador, e, ao mesmo tempo, necessário.

A soma dessas partes está resumida num resultado que cria um confronto com a perda. A esse propósito escreve: «…pelas minhas contas, só dez por cento da vida se compõem de coisas e de pessoas de que gostamos e que, por esses dez por cento – a verdadeira alegria de viver –, temos de suportar os outros noventa». Essa escrita e noção afasta tentativas de suavizar, encontrando uma clareza rara que torna Tudo na natureza apenas continua um livro que rasga, transforma e fica. Portanto, avassalador e inesquecível.



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