“Aquilo em que preferia não pensar” de Jente Posthuma
A dor silenciosa de perder a nossa metade
Finalista do Booker Prize International 2024, Aquilo em que preferia não pensar (D. Quixote, 2025), da holandesa Jente Posthuma, é um mergulho na experiência do luto e da identidade fragmentada após o suicídio daquela pessoa que, muitas vezes, assumimos como o nosso reflexo: um irmão gémeo.
É em torno dessa perda devastadora que gira este magnífico livro que nos obriga a refletir sobre como continuar a existir depois de uma tragédia que nos deixa sós no mundo.
Através de uma escrita por vezes contida, outras poética e de humor subtil, Posthuma constrói uma narrativa profundamente humana, sendo a narradora uma mulher que vive à sombra da perda do irmão e tenta reconstruir a própria vida enquanto revisita memórias de infância, relações familiares e pequenos rituais partilhados, pois, dos irmãos, sabemos pouco mais do que o facto de ela colecionar camisolas, ele ter dois gatos e ambos adorarem Nova Iorque, cidade para onde querem mudar-se aos 28 anos.
Nessa luta entre os vários tempos da existência, e a cada fragmento sob a forma de “capítulos” (mais semelhantes a vinhetas…) que se dividem entre meia dúzia de linhas ou um par de páginas, o leitor é confrontado com o peso do silêncio e com a vulnerabilidade de quem procura redefinir-se sem o reflexo que o completava.

Assim, ao caminhar por um universo com várias camadas de subtileza emocional, o leitor é convidado a alternar entre o passado e o presente, o riso e a dor, o absurdo e o inevitável, com essa estrutura fragmentada a traduzir, de forma literária, o processo de perda onde os avanços e recuos são constantes.
Há mesmo momentos em que o texto se aproxima da “poesia”, ou outros em que o humor se infiltra como um irónico mecanismo de defesa irónico que permite a Posthuma expõr o vínculo íntimo entre os gémeos, antes que a tragédia destrua o equilíbrio da narrativa.
Por outro lado, a autenticidade e um certa “contenção” neste livro, faz com que o devoremos rapidamente, e mesmo que saibamos que estamos perante relatos de dor, há o cuidado de não a dramatizar, optando a autora por dissecá-la com delicadeza e inteligência, sem sentimentalismos fáceis. Também por isso, a escrita é despojada, quase minimalista, mas cada frase, cada respiração, carrega um grande peso emocional, valendo o humor de antídoto face a toda a sombra que assalta esta história que aborda temas como a saúde mental, a culpa e a solidão.
Nas entrelinhas fica a pergunta: até que ponto podemos compreender o sofrimento do outro, mesmo quando esse outro é um irmão gémeo, alguém com quem partilhamos não só a vida, mas também a identidade? A resposta fica ao “critério” de cada um, podendo surgir num sussurro mais tímido ou num corajoso grito.
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