“A presa” de Yrsa Sigurdardóttir
O gelo que habita em nós
Considerada como a rainha do thriller noir islandês, a islandesa Yrsa Sigurdardóttir confirma os seus créditos narrativos e criativos em A presa (Quetzal, 2025), livro nomeado para o Gold Dagger Award 2024 e distinguido como um dos Sunday Times Crime Books of the Year, e que chegou recentemente às livrarias nacionais.
A narrativa desenvolve-se em três momentos que se entrelaçam num crescendo de inquietação. Por um lado, temos Kolbeinn, um homem que descobre uma caixa com fotografias antigas e um sapato infantil com o nome “Salvör” gravado, e que, por isso, se vê confrontado com segredos enterrados no tempo; já Jóhanna é membro de uma equipa de busca e salvamento, cuja missão é procurar dois casais desaparecidos nas terras altas, tarefa que reabre feridas de um passado que a tornou uma mulher triste; por fim, Hjörvar é um solitário operador da estação de radar em Stokksnes, que é assombrado por uma chamada misteriosa que revela uma voz infantil e desesperada na noite e põe em causa a sua sanidade mental e o convida e descobrir um passado desconhecido da sua família.
Num livro mergulha o leitor num enredo de tensão gelada, onde o mistério, o isolamento e a culpa se cruzam sob o céu cinzento da Islândia, Sigurdardóttir entrelaça estas histórias com mestria, fazendo da paisagem islandesa uma verdadeira personagem, cuja força tanto oprime como inspira viva, tendo a constante presença de um vento cortante, o gelo que nunca derrete e um silêncio branco, que, juntos, criam uma atmosfera quase hipnótica. O resultado é uma narrativa precisa cuja inquietação é sempre crescente.

E à medida que a trama ganha contornos, sente-se que temos na mão um livro que é mais do que um thriller policial. É um estudo sobre o medo, a solidão e o modo como o passado pode emergir das sombras mais geladas da memória. No expoente dessa reflexão está Jóhanna, talvez a personagem mais humana de toda a história, que representa o trauma e a resistência, alguém que carrega as marcas de um acidente que nunca esqueceu, mas que continua a caminhar em frente, mesmo sem encontrar a luz.
A profundidade emocional da escrita de A presa, a par de uma narrativa perto de ritmos cinematográficos a vários tempos, é capaz de transformar o silêncio em tensão, enquanto que, de uma outra perspetiva, a combinação de realismo com um toque sobrenatural confere um ambiente intrigante.
Aconselhado não apenas aos amantes de thriller, este livro é sinónimo de horas bem passadas, onde o ato de folhear partilha vários sentimentos, seja isso o medo que se esconde sob a rotina, as vozes que ecoam no vazio ou o passado que insiste em ser ouvido. Pois, o frio que mais nos assola é aquele que habita dentro de cada um de nós.
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