As Raparigas Cintilantes

“As Raparigas Cintilantes” de Lauren Beukes

Assassino intemporal

Enquanto Chicago sente as dilacerantes consequências da Grande Depressão, Harpes Curtis, um vagabundo violento e paranoico, encontra uma casa que reserva em si um segredo que mistura magia e tormento. De exterior decrépito, a invulgar habitação observa um interior opulento. Para além disso, um cadáver estendido em um dos corredores adensa o mistério.

Ao explorar o local, Harper dá de caras com uma grande quantia de dinheiro assim como com uma coleção de objetos que pertencem a dispares períodos temporais. Mas o mais intrigante é um portal que possibilita viajar entre o passado e o futuro.

A ligação entre a Casa e o vagabundo adensa-se e Curtis começa a entender o que o chamou a tal local. A mensagem é clara: Harper deve encontrar raparigas que “brilham” e as mesmas estão espalhadas ao longo de uma peculiar linha cronológica. Sem olhar a credos ou afins, Harper interioriza a sua demanda. As raparigas devem morrer e sentir a força da sua faca. Alice, Julia, Margot, Jin-Sook, Zora, Willie, Misha e Catherine cintilam e esperam a morte. Mas nem tudo corre na perfeição ao plano de Curtis…

Kirby Mazrachi está a passar pela maior provação da sua vida. Vítima de uma brutal tentativa de assassinato, salva-se miraculosamente mas depois de recuperar, em parte, a sua vida, olha ao espelho e cada cicatriz que sente no corpo é uma razão para não desistir de procurar o seu agressor.

Vivem-se os anos 1990 e Chicago continua uma cidade emersa em si mesma. Kirby, aspirante a jornalista e dona de uma alma (e visual) punk, consegue um estágio na editoria de desporto no Chicago Sun-Times, ficando à responsabilidade de Dan Velasquez, um antigo repórter criminal. Paralelamente ao seu trabalho no campo do desporto, Mazrachi serve-se do arquivo do jornal para procurar mais informações sobre outras raparigas assassinadas e aquilo que descobre desafia a compreensão humana.

Por entre linhas que se bifurcam entre o thriller policial, o fantástico e o terror, “As Raparigas Cintilantes” (Porto Editora, 2014) assume-se com a estreia nos escaparates nacionais da obra da sul-africana Lauren Beukes que acumula as funções de argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de banda desenhada e jornalista com a nobre arte de escrever romances.

Beukes que teve a honrar de receber o consagrado Prémio Authur C. Clarke por altura da publicação do seu romance visionário “Zoo City” – que brevemente será alvo de uma adaptação cinematográfica – faz-nos chegar um livro que vai fazer as delícias dos que procuram emoções fortes e não se deixam intimidar com cenas que combinam brutalidade, terror e uma demência atroz e que se serve de constantes flashbacks que tornam a narrativa muito dinâmica e apelativa principalmente devido aos curtos capítulos que alternam entre realidades, personagens e linhas cronológicas.

O segredo do sucesso deste livro está na atribulada relação do trio Harper-Kirby-Dan, ainda que não exista um grande trabalho em termos de densidade emocional no que toca à caracterização dos personagens por parte de Beukes. Ainda assim, no seu todo, “As Raparigas Cintilantes” é uma obra interessante que mexe com a memória e as cicatrizes (metafóricas ou reais) cravadas no corpo de assassinos e vítimas, sendo a sua leitura uma espécie de redenção.



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