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“As Raparigas Estão Bem”, de Ilaria Bernardini

Nem tudo o que luz é ouro

As Raparigas Estão Bem, de Ilaria Bernardini (Harper Collins, 2024), é um thriller passado num meio exigente, de competição acirrada, quer contra as atletas rivais, quer contra as próprias companheiras de equipa.

Ilaria Bernardini, é escritora, guionista, com mais de 9 romances e duas coleções de contos, entre eles, o Faremo Foresta, pré-selecionado para o prémio italiano Strega, e Corpo Libero, que foi transformado num reality show famoso.

As Raparigas Estão Bem, é baseado em Corpo Libero e na experiência da autora no mundo da ginástica artística. O livro foi adaptado para uma série em seis partes, ao encargo da Indigo Film, da All 3Media International e do Creative Europe Media da União Europeia.

Além das funções acima referidas, Bernardini também criou programas de TV, entre os quais Ginnaste e Ballerini (MTV), e foi colaboradora da Rolling Stone, Vanity Fair, Vogue e GQ.

Em As Raparigas Estão Bem, apresenta-nos um relato perturbador, e por vezes, exasperante, num tom adolescente, compatível com a idade das protagonistas, com episódios de violência crua, bullying, abusos psicológicos/sexuais, e doenças mentais. As personagens são moralmente dúbias, com as quais é impossível simpatizar.

Contado do ponto de vista de Martina, uma jovem que não é considerada in o suficiente para pertencer ao grupo das meninas cool, mas que parece mais fixe do que “as Inúteis”, as colegas que nem conseguem entrar naquele círculo exclusivo e íntimo.

O livro parte de uma boa premissa, com uma menção a um assassinato, assassinato esse que o enredo demora a aprofundar. Além de trazer à memória situações reais, sobre ginastas abusadas pela pessoa que devia protegê-las, tudo em nome da vitória e do ouro.

Dentro de sete dias haverá uma ginasta morta e, no entanto, ao abrir os olhos, parece-me que continua tudo igual. Ainda que, claro, a minha vida seja um loop e tudo me pareça sempre igual.

A equipa italiana vai competir na Roménia, onde o tempo frio dita o tom da história, conferindo uma atmosfera brusca, dura. As jovens têm os seus preconceitos e rivalidades, um elevado sentido de competição e os receios típicos de um atleta de um desporto tão arriscado, como ficar paralisada ou morta.

Pressões psicológicas quer por parte dos adultos, quer delas próprias a si mesmas, que as levam a um declínio mental.

Conforme a semana prossegue, sentimos a pressão e exigência a aumentar e as consequências das mesmas.

Sigo-as, fazendo com que pareça que não estou a segui-las; odeiam-me quando me aproximo demasiado e eu odeio-me a mim mesma quando me aproximo demasiado. De modo que ando junto delas, mas um passo e meio atrás.

Martina, não gosta de nada nem de ninguém, não é a melhor ginasta e vem de um background pobre, o que lhe confere um alvo nas costas, sendo o recipiente de piadinhas por parte das miúdas top da equipa, Carla e Nadia.

Como tal, empurra o seu corpo e organismo ao limite, muitas vezes sem se alimentar devidamente, além de sofrer abusos por parte do treinador, ato ignorado por Rachele que sabe do ocorrido a Martina e às restantes ginastas, mas que escolhe varrer a informação para debaixo do tapete, em prol da vitória das suas meninas de elite.

Quando Martina tem que partilhar quarto com o duo, começa a entender a amizade estranha, tóxica a roçar o obsessivo, entre Carla e Nadia. Além de que estas são odiosas, arrogantes, altivas e, se levadas ao extremo, perigosas.

As Raparigas Estão Bem, de Ilaria Bernardini, é um retrato desolador e arrepiante, de um mundo competitivo, aliciante, com muitas pressões, adultos predadores e jovens psicologicamente instáveis, numa escrita gráfica e dark.



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