Drahla + Them Flying Monkeys @ ZDB (26.05.2024)
Matiné de Domingo
Texto por Miguel Barba e fotografia por Rui de Freitas.
Final de tarde de Domingo e o sol convida a uma saída. Porque não o Aquário? Os Them Flying Monkeys preparam-se para abrir para os Drahla, de Leeds. A final da Taça de Portugal joga-se à hora do concerto e isso impacta, até na própria banda, com alguns dos elementos a teimarem em largar um ecrã de telemóvel onde o jogo se vai desenrolando.
Em estreia na ZDB, os Them Flying Monkeys arrancam com força, com músculo. Duas guitarras, um baixo, bateria, teclados e sintetizadores. A influencia britânica é evidente e o som é mais pesado, face aos registos anteriores. Estamos perante uma banda que assume plenamente uma mudança no estilo face ao passado. Há uma procura pelas canções orelhudas e pelo refrão, num crescendo sustentado, ora pelas guitarras, ora pelo baixo. E sacam-nos um belo head banging.
Os Drahla serão servidos à hora de jantar. A escuridão do interior do Aquário, contrasta com a luz do belo fim tarde que se faz sentir no pátio interior que dá acesso à sala. Mas é um contraste agradável. Lisboa tem destas coisas. Como é necessário mudar muita coisa em palco, a espera prolonga-se um pouco., permitindo aproveitar o final da tarde e saborear uma cerveja. A perfeição existe nestes pequenos momentos.
20h20. É hora de escutar “angeltape” ao vivo. «Under The Glass» é a primeira canção e é também a primeira faixa do álbum. É Post-punk a rasgar, cáustico q.b. e dá o mote para um registo próximo do spoken word. Vão-se delineando atmosferas densas, onde embora a matriz seja post-punk, o experimentalismo anda à solta, procurando ocupar aquelas zonas de franja, limite.
O protagonismo ora fica entregue à guitarra de Luciel Brown, com o olhar quase sempre escondido sob a pala de um boné, ora ao baixo de Rob Riggs, que quando se chega a frente é simplesmente imparável. Omnipresente é a bateria de Mike Ainsley que nos deixa ofegante, entre picos de velocidade intercalados com provas de resistência e com um ritmo sempre atípico.
Os Drahla procuram criar arte sonora que, sobre uma abordagem intensa e acutilante, consegue tecer uma fina camada de beleza que se estende ao longo de toda a canção. Atente-se à beleza incisiva que atravessa «Talking Radiance». Há uns (bons) anos, os At The Drive-In lançaram um álbum chamado “Relationship of Command” e causaram uma revolução num nicho musical. Os Drahla podem estar no processo de fazer o mesmo, no seu nicho. Pegando num género e reformulando, esticando e reinventando. «Second Rhythm» oferece-nos uma execução incrível, a revelar uma destreza, por vezes desconcertante, no uso dos seus instrumentos. É um registo difícil de catalogar de uma forma simples, mas é já identitário dos Drahla. Pelo Aquário o foco mantém-se sobre “angeltape”, quase na totalidade, e por ali desfilam ainda «Lipsync», «Default Parody», «Grief in Phantasia» e «Fictional Decision».
Há momentos em que o industrial parece querer tomar a dianteira, para no momento seguinte o post-punk pulsar intensamente. Sentimos o sangue a ser bombeado nas artérias. As canções desafiam-nos. Canções que por vezes são terminadas abruptamente; como se nos puxassem deliberadamente o tapete. Sabe muito melhor quando ficamos com aquela fome, uma ânsia por mais uns segundos, por mais um refrão, que sabemos que não vamos ter. Chegamos, entretanto, ao encore, que nos reserva uma dupla passagem pelo álbum “Useless Coordinates”, de 2019, com as escolhas a recaírem em «React/Revolt» e «Invisible Sex».
Presenciámos 50 minutos bem rasgadinhos de uma banda que vai dar muito, muito mais que falar. Anotem aí, Drahla.
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