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“Como se não houvesse amanhã” de Sérgio Godinho

Para que serve um corpo(?)

Numa entrevista sobre este seu mais recente livro, Sérgio Godinho, nome incontornável da música portuguesa e que, a espaços, transforma a sua escrita em narrativas literárias, confessou interessar-se pela matéria humana à volta do suicídio, consumado ou não, referindo-se a Como se não houvesse amanhã (Quetzal, 2025), como «um livro cheio de vida».

Após ler os quinze contos que compõem esse livro, não podíamos concordar mais com essa afirmação e, acima de tudo, como o poder da ficção que leva, como diz Godinho, «a escrever sobre coisas que não são iguais a nós», principalmente quando «não se tem impulsos suicidas».   

As breves histórias partilhadas neste livro, que remetem, por exemplo, para o fascinante universo criado por Enrique Vila-Matas em Suicídios exemplares, obra da década de 1990, são pedaços de vida, de “ses” que mesclam crueldade com comoção ao explorar os limites do existir e do sentir. O subtítulo explícito, “Histórias suicidas”, leva-nos a mergulhar nos labirintos da urgência emocional e da decisão extrema, de um certo livre arbítrio, mas muito mais do que um tributo à fatalidade, trata-se de um salto consciente face a um abismo pulsante que todos podemos carregar.

Por isso, cada conto emerge como uma simbiose entre o derradeiro fôlego e a fragilidade humana, a dor de procurar um fim. Em busca desse ponto final, há mulheres que planeiam o homicídio e o suicídio como ato de rebeldia existencial; amantes que apostam no último gesto perante um tempo que se esgota; atores dependentes de um último aplauso; um homem que quer saborear o auge do prazer em jogos sadomasoquistas; um surfista que fica tetraplégico e encontra redenção no olhar da namorada. Há ainda passatempos eróticos como fuga ao vazio, objetos de ciúme, reconciliações que são despedidas. No fundo, falamos, lemos, narrativas densas, suspensas num dia fatal, que se transfiguram em histórias que não pedem piedade, mas uma “escuta” atenta.

Ao invés de romantizar o suicídio, Sérgio Godinho faz-nos entender a fragilidade que o desata: a exaustão, o ciúme, a solidão, o desejo de glória ou a procura de redenção, ou de um final (in)feliz. Na escolha desse dilema, entendido como um misto de coragem e cobardia, ficam os resquícios de vidas que habitam o silêncio dessas páginas. É, pela pena de Godinho, a literatura que exprime o que, muitas vezes, não se ousa sentir, levando homens e mulheres, ficcionados, a enfrentarem o reflexo do seu espelho.

A dor pode ser como uma metáfora de vida, um jogo de sombras ou luzes que se acendem ou apagam, algo que encontramos nestes quinze contos que exigem pausas entre si, para melhor os interiorizar, e reflexões pela sua riqueza emocional contínua. Em todos eles, sente-se a precisão e honestidade com que foram escritos, mas também, paradoxalmente, a urgência de se viver consoante as escolhas. Pois, mesmo falando do fim, há um sopro vital que não se extingue.



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