Da minha língua vê-se o mar

«Da minha língua vê-se o mar» é o título da exposição e das obras criadas por Mia Degner (Copenhaga, 1984) para o espaço do Round The Corner (Teatro da Trindade), patente entre 19 e 29 de Maio. “Num diálogo com a artista sobre o porquê do título, ela adianta uma explicação simples: porque nasci perto do mar e Portugal é como o lugar onde nasci, aqui estou em casa. Nesta conversa introduzi os descobrimentos e obras de artistas portugueses (o «Mar Salgado» de João Pedro Vale, Ernesto de Sousa na praia do Guincho), que falam da relação com o mar. Por esta altura, Mia Degner falava-me de Fernando Pessoa, o poeta que a introduziu a Portugal com o seu «Mar Português», e de um poema de Virgílio Ferreira, também poeta português: “Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.”

O cruzamento referencial instalou-se e simplesmente o verso «Da minha língua vê-se o mar» fixou-se também, como sujeito e objecto da exposição assumindo-se como título. O processo de trabalho da artista dinamarquesa começa muitas vezes com uma palavra, um poema, a letra de uma música, para designar uma série de desenhos, ou um filme. A artista, que se formou na tradição de contar histórias na The Storytelling School (Fortælleskolen) em Copenhaga, faz das palavras, um ponto de partida que revela com determinação, sem por vezes saber ainda onde elas conduzirão ou o que delas resultará em termos formais, já que o seu processo é assumidamente experimental.

Em “As Palavras e as Coisas” (1981), Michel Foucault assinala a diferença fundamental entre a imagem e a palavra: «Não que a palavra seja imperfeita, nem que, em face do visível, ela acuse um deficit que se esforçaria em vão por ultrapassar. Trata-se de duas coisas irredutíveis uma à outra: por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz.» É difícil apontar o dedo e denominar o que é o trabalho de Mia Degner, o que se vê é aparentemente uma história mas onde estão o início e o fim? No Round The Corner – na primeira exposição individual da artista em Portugal – o vídeo, o som e as colagens possuem uma identidade que se situa algures entre a poesia e o experimental.

O conjunto de trabalhos aqui apresentados funcionam como uma narrativa não linear de emoções mais do que histórias. Como portugueses, estamos habituados à representação do mar simultaneamente como uma emblemática paisagem portuguesa e como lugar de partida ou de passagem. O mar é, de facto, emblemático de todos os países que são privilegiados pela sua presença e a questão impõe-se: o nosso mar é o mesmo que o mar dos “outros”? Mia Degner apresenta-nos o seu mar, um mar desprovido de nacionalidades e de hierarquia narrativa”, Luísa Santos, curadora da exposição.



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