a-bola-negra-estreia-destaque

A Bola Negra, fenómeno espanhol de Los Javis, estreia em Portugal

Com mais de 5,5 milhões de espectadores em Espanha e o Prémio de Melhor Realização em Cannes, o filme inspirado em Lorca chega às salas a 5 de novembro.

A Bola Negra, a segunda longa-metragem de Javier Calvo e Javier Ambrossi — a dupla conhecida como Los Javis —, estreia esta quinta-feira, 5 de novembro, nos cinemas portugueses, com distribuição da Nitrato Filmes. O filme chega a Portugal depois de ter feito história em Espanha, onde ultrapassou os 5,5 milhões de espectadores, e de um percurso pelos festivais internacionais que lhe valeu o Prémio de Melhor Realização em Cannes. Segundo a distribuidora, há já sessões esgotadas para a estreia. Partindo de uma obra inacabada de Federico García Lorca, o drama musical cruza três épocas e mais de oito décadas para recuperar vidas que a História tentou apagar.

Um fenómeno raro: crítica e público do mesmo lado

Há filmes que conquistam a crítica e há filmes que enchem salas. A Bola Negra conseguiu as duas coisas ao mesmo tempo, algo que a própria distribuidora descreve como um fenómeno raro. Em Espanha, os mais de 5,5 milhões de espectadores colocam o filme num patamar que poucas produções de autor alguma vez atingiram, sobretudo tratando-se de uma obra com 155 minutos, que mistura drama e musical e coloca no centro histórias de amor entre homens.

O entusiasmo popular foi acompanhado por um palmarés invulgar. Depois da estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes, onde Los Javis receberam o Prémio de Melhor Realização, o filme somou Prémios do Público em Toronto, San Sebastián, Sydney e Busan — quatro festivais, em três continentes e com plateias muito diferentes, a escolherem o mesmo título.

A Bola Negra é ainda o filme escolhido para representar Espanha na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, o que faz da estreia portuguesa uma oportunidade de ver, em sala, um dos títulos europeus que mais se vão ouvir nos próximos meses.

Lorca, três tempos e uma história que se recusa a desaparecer

A ficção cruza três homens em três épocas — 1932, 1937 e 2017 —, ligados pela sexualidade e pelo desejo, pela dor e pela herança, e por uma das últimas obras inacabadas de García Lorca. As histórias entrelaçam-se ao longo de mais de oito décadas, da Espanha dos anos 1930 ao presente, onde uma personagem tenta juntar as peças de um passado que a família nunca soube contar.

Mais do que reconstruir a época, o filme interessa-se pelo que dela resta. É, nas palavras da Nitrato Filmes, «um gesto de memória»: um filme sobre o que foi escondido e sobre o poder da arte para resistir ao esquecimento. No dossier de imprensa, os realizadores lembram que conhecemos as culturas antigas sobretudo através daquilo que criaram — livros, pinturas, música, histórias — e não das coisas que, em cada época, pareciam mais importantes.

«A arte foi feita para lembrar, ou para dizer a outras pessoas que algo aconteceu.»

— Javier Calvo, no dossier de imprensa do filme

Ambrossi recorda uma frase cortada na montagem, dita por uma adolescente numa cena passada em Atenas: as emoções desaparecem, as pessoas morrem, mas os objetos ficam para sempre. A cena saiu por ser demasiado explícita, mas o realizador considera-a a ideia central do filme — aquilo que sentimos desaparece connosco, a não ser que alguém o escreva ou o transforme em arte.

Penélope Cruz, Glenn Close e um elenco fora do comum

O elenco junta nomes consagrados do cinema internacional a rostos menos habituais. Penélope Cruz interpreta Nené, Glenn Close é Isabelle e Lola Dueñas dá vida a Teresa. Os três protagonistas masculinos ficam a cargo do cantor Guitarricadelafuente (Sebastián), de Miguel Bernardeau (Rafael) e de Carlos González (Alberto), com Milo Quifes no papel de Carlos.

A combinação é deliberada. Los Javis sempre misturaram atores profissionais com pessoas sem experiência, desde Paquita Salas, e dizem gostar do que os não-atores trazem para a câmara: não estão a tentar repetir o que já lhes deu sucesso, e isso cria algo muito vivo. No set, a dupla procura construir uma verdadeira família — jantares, saídas, festas —, com uma equipa técnica que os acompanha há anos, de La Llamada a Veneno.

Poesia contra a pressa

A Bola Negra é também uma defesa da poesia num tempo de pressa. Calvo confessa que, perante tanto ultrarrealismo e tanta narrativa autobiográfica, sente que o cinema perdeu algum sentido de beleza, e que quis devolvê-lo ao filme. Ambrossi acrescenta que nem tudo tem de ser compreendido de imediato, contrariando a pressão — muito associada às plataformas — para que cada cena seja instantaneamente clara.

«A poesia não funciona assim. Deixa espaço para o mistério, a emoção e a interpretação.»

— Javier Ambrossi, no dossier de imprensa do filme

Essa liberdade atravessa a forma do filme, das canções aos símbolos que remetem para o universo de Lorca, e é o que tem permitido a A Bola Negra chegar a públicos tão diferentes, de Cannes a Busan e, agora, às salas portuguesas.

Onde ver

A Bola Negra (Espanha/França, 2026, 155 minutos) estreia a 5 de novembro em salas de todo o país. A lista de cinemas e bilheteiras está em permanente atualização no site da Nitrato Filmes, que partilha também novidades no Instagram e no Facebook. O trailer pode ser visto no Vimeo.

Com a estreia em Portugal e a corrida aos Óscares pela frente, A Bola Negra prepara-se para prolongar a vida de um filme que já ultrapassou largamente as fronteiras espanholas. Resta saber se o público português responderá com o mesmo entusiasmo — as primeiras sessões esgotadas sugerem que sim — e se Los Javis levarão até Hollywood a herança de Lorca que decidiram salvar do esquecimento.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This