“John, filho de John”, de Douglas Stuart
Silêncios que se herdam na desobediência
Alguns regressos a casa nada têm de reconfortante. Para John-Calum Macleod, aka Cal, voltar à ilha de Harris, nas Hébridas Exteriores escocesas, significa voltar a um mundo onde as regras continuam intactas, mesmo quando ele próprio já não se revê nelas.
Depois de estudar Belas-Artes em Edimburgo, o jovem vê-se assim novamente sob a autoridade do pai, John, um homem profundamente religioso, preso a uma ideia rígida de masculinidade e determinado a manter a família dentro dos limites que conhece, ainda que abalados por um casamento falhado.
É a partir desses “fios” que se desenrola o novelo de John, filho de John (Alfaguara, 2026), terceiro romance de Douglas Stuart, estando o cerne desta extraordinária narrativa além de “apenas” saber se Cal conseguirá assumir a sua identidade num ambiente hostil à homossexualidade. Isso porque, o que interessa ao escritor escocês é perceber como se vive quando o afeto e a repressão nascem da mesma pessoa.
No centro da tempestade emocional deste livro, está uma relação entre pai e filho alimentada pela vergonha de não se ser aquilo que se acredita. Se, por um lado, Cal sente o peso das expectativas que lhe são impostas, John agarra-se à religião e às convenções como se delas dependesse a sobrevivência da imagem que construiu de si próprio. Entre ambos, o amor existe, mas dificilmente encontra uma linguagem que não seja a do conflito, a maioria das vezes psicológico, outras, físico.
Isso está implícito em pequenos episódios da vida quotidiana, como, por exemplo, no ambiente que rodeia os momentos de trabalho no tear, arte sabida por pai e filho, tornando-se uma das imagens mais expressivas desta existência entre o conflito e o dever. Aí, a dureza física, a repetição dos gestos e a solidão de John e Cal evocam uma vida azeda, atravessada por tormentas interiores.
Como os fios que se cruzam no tear e se prendem numa estrutura rígida, também os personagens parecem enredados numa rede de obrigações, desejos e medos. Por isso, o tear deixa de ser só parte do quotidiano da ilha, funcionando como metáfora de uma vida em que esconder o que se sente se transforma numa necessidade, até ao ponto em que a própria vontade fica condicionada pelo silêncio.
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Além disso, John, filho de John, é também pretexto para Stuart regressar a temas que atravessam Shuggie Bain e Um Lugar para Mungo: a vulnerabilidade masculina, a sexualidade, a violência exercida em nome de uma ordem moral e a procura de afeto em ambientes hostis. Mas, neste caso, a mudança de cenário altera a respiração do romance. A ilha não é apenas um pano de fundo agreste, com a criação de ovelhas, a tecelagem, a língua gaélica e os rituais religiosos a compor um universo com regras próprias, mas onde a vida privada dificilmente se separa da coletiva.
A fé é outro exercício de reflexão, ocupando lugar central nesta tensão. Principalmente em John, a religião oferece uma estrutura para compreender o mundo, mas também um instrumento de repressão, sobretudo quando a homossexualidade entra em choque com aquilo que considera moralmente aceitável. A paixão e a culpa tornam-se forças difíceis de separar…
E como o desejo não desaparece por ser negado, transforma-se em segredo. E o segredo alimenta a vergonha entre homens adultos, amigos, vizinhos, amantes. Também a repressão que John exerce sobre Cal ganha, assim, uma dimensão mais dolorosa: não nasce apenas da incapacidade de aceitar o filho, mas da dificuldade em enfrentar as contradições que o próprio carrega.
Esta duplicidade impede que a história se limite a uma oposição simples entre um pai conservador e um jovem que procura libertar-se, até porque ambos estão cativos e reféns de várias formas diferentes de solidão, mas unidos por um afeto que não consegue libertá-los das expectativas que os sufocam.
Como contexto e parte importante da trama, Stuart constrói alguns personagens-satélite como Ella, sogra de John e avô de Cal, Doll, amigo de infância de Cal e antigo companheiro de experiências íntimas, Innes, o vizinho e amante de John, e Grace, mãe de Cal. A sua presença regular na narrativa dá outras respostas que se revelam à medida que as páginas são deixadas para trás, repletas de gestos quotidianos, silêncios e laivos do suor de um trabalho exigente, e onde o escritor encontra uma força que dispensa explicações excessivas.
Contas feitas, estamos perante um dos melhores livros de 2026, livre da ambição de procurar respostas simples sobre a possibilidade de reconciliação entre pais e filhos, assumindo a consciência de que o amor, por si só, não apaga o dano causado pela vergonha e pela rejeição. Pois, a prisão mais difícil de abandonar é aquela que se edifica dentro de cada um.
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