Stabat Mater: Custódia Gallego dá corpo a cinco mães e cinco perdas
A nova criação do Teatro da Garagem, com texto e encenação de Carlos J. Pessoa, estreia a 12 de novembro no Teatro Taborda, em Lisboa, e fica em cena até dia 22.
O Teatro da Garagem estreia a 12 de novembro Stabat Mater, nova criação com texto e encenação de Carlos J. Pessoa e interpretação de Custódia Gallego e Célia Teixeira. Inspirada no poema medieval que há mais de sete séculos dá voz à dor de uma mãe diante da morte do filho, a peça transporta a imagem da Virgem junto à cruz para cinco histórias de perda do nosso tempo. O espetáculo fica em cena no Teatro Taborda, em Lisboa, até 22 de novembro.
“Estava a Mãe”: da iconografia secular ao nosso tempo
Stabat Mater — em latim, “Estava a Mãe” — parte de uma das imagens mais marcantes da tradição ocidental: a Virgem Maria junto à cruz de Jesus Cristo. Carlos J. Pessoa, diretor artístico do Teatro da Garagem, faz desta iconografia secular o fio condutor para histórias contemporâneas, percorrendo diferentes formas da experiência da perda.
São cinco mães, cinco perdas, cinco experiências-limite: a dor de viver de um filho ainda jovem, a deriva de uma adição, um acidente de estrada, o conflito entre a maternidade e uma causa que chama por outros filhos e, no limite da linguagem, o grito de uma mãe que já não é humana. Em cena, uma atriz empresta corpo, voz e os cinco sentidos à dor sem nome.
“Construí Stabat Mater de um modo que mostrasse até que ponto somos vulneráveis e até que ponto esta vida aparentemente segura e quase monótona, de súbito, nos dá aquela facada do destino, aquela rasteira que, de repente, vira tudo ao contrário.”
— Carlos J. Pessoa, encenador e diretor artístico do Teatro da Garagem
Custódia Gallego e Célia Teixeira em palco
Custódia Gallego conduz uma interpretação íntima e emotiva, explorando os diferentes limites dessa angústia. Com mais de 40 anos de carreira no teatro, no cinema e na televisão, a atriz, bem conhecida do grande público, foi distinguida em 2025 com o Globo de Ouro para Melhor Atriz de Teatro.
A seu lado, a soprano e atriz Célia Teixeira atravessa o espetáculo entre o canto lírico e a improvisação. Além do trabalho como atriz, Célia Teixeira tem uma presença ativa no panorama da música contemporânea em Portugal, com um percurso que passa pela ópera, pela música barroca e pela música sacra.
Uma liturgia cénica entre Schubert e uma batida rave
Stabat Mater propõe-se como uma liturgia cénica, em que a palavra tem peso e tempo para ser dita e escutada, acompanhada por uma música de ênfase simultaneamente solene. Os versos latinos do poema encontram a melodia de Schubert e, mais adiante, uma batida rave e o simples dizer dos versos. À volta ecoam Rachmaninov, Monteverdi, Bach, Villa-Lobos e Messiaen.
Entre o sagrado e o profano, o espetáculo procura acolher a tragédia, mas também o lado insólito, quase burlesco, da dor. Cantados ao longo da noite, os versos de Stabat Mater refletem sobre o sentido da existência humana quando confrontada com a perda maior — a da descendência — e, com ela, a perda do próprio futuro.
O tempo e a passagem no Teatro da Garagem
A nova criação integra a programação do último quadrimestre de 2026 da companhia, dedicada ao tempo e à forma como interrogamos a sua passagem. Em Stabat Mater, o tempo imóvel surge na dor que uma mãe carrega, mas também na perda da noção do essencial: os afetos, o amor e as ligações absolutas. Para o encenador, a morte está sempre presente no teatro, “quanto mais não seja, porque é a arte do efémero: começa e acaba”.
Fundado em 1989 e dirigido artisticamente por Carlos J. Pessoa desde então, o Teatro da Garagem construiu um percurso singular na cena portuguesa, assente na tensão entre linguagem cénica e pensamento crítico, elegendo o texto como dispositivo e o corpo como argumento. A ficha artística conta ainda com coordenação artística de Luís Puto, sonoplastia de André Carinha, luz e vídeo de Carlos Vinícius, assistência à cenografia de Herlandson Duarte e direção de produção de Raquel Matos.
Datas, horários e bilhetes
Stabat Mater está em cena no Teatro Taborda, em Lisboa, de 12 a 22 de novembro, às quintas-feiras às 19h30, às sextas e sábados às 21h00 e aos domingos às 16h30. Os bilhetes custam entre 6€ e 12€ e estão à venda na See Tickets.
Num tempo em que a perda raramente encontra palavras, o Teatro da Garagem devolve ao palco um poema com sete séculos para lhe dar rosto e voz. Stabat Mater promete ser uma das propostas mais intensas do outono teatral lisboeta — e uma oportunidade de ver Custódia Gallego num registo de grande exigência. Mais informações no Instagram e no Facebook da companhia.
Fotografias: © Carlos Porfírio / Puro Conceito
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