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“Fantasmas” de Siri Hustvedt

Reflexão íntima sobre o luto

Conhecida tanto pelos romances que escreveu, como, por exemplo, Aquilo que Eu Amava e O Mundo Ardente, como por ter sido mulher de Paul Auster, a norte-americana Siri Hustvedt construiu ao longo das últimas décadas uma obra onde convergem literatura, neurociência, filosofia e psicanálise.

Doutorada em Literatura Inglesa pela Universidade de Columbia e distinguida com o Prémio Princesa das Astúrias das Letras, Hustvedt sempre manteve a sua escrita próxima dos mecanismos da memória e da identidade.  Porém, em Fantasmas (D. Quixote, 2026), essa dinâmica torna-se dolorosamente concreta, uma vez que o livro tem como ponto de partida a morte de Auster.

A estrutura fragmentária deste livro, composta por entradas de diário, cartas, reflexões filosóficas e textos inacabados de Auster, transporta o luto para uma dimensão que pode definir-se como uma cartografia emocional, pois, Hustvedt não procura dramatizar a perda, preferindo mostrar como ela desorganiza silenciosamente o quotidiano.

Segundo a sua leitura, o tempo deixa de obedecer à lógica, os objetos ganham peso espectral e a linguagem torna-se insuficiente para nomear a ausência. Há como que rito de passagem do “nós” para o “eu”, com Siri Hustvedt a transformar o sofrimento numa reflexão universal sobre a intimidade e a memória.

Essa é, provavelmente, a marca mais característica de Fantasmas, residindo a sua forma na recusa do sentimentalismo fácil, com Hustvedt a escrever com uma lucidez clínica, mas nunca fria. Essa capacidade deriva em momentos de devastação emocional, sobretudo nas descrições da doença de Auster, que convivem com passagens de extraordinária delicadeza, com a autora a descobrir, a compreender, que o luto não é linear, mas sim feito de recaídas, obsessões, pequenas epifanias e da persistência absurda dos gestos quotidianos.

A aprendizagem e partilha confere ainda a este livro um perfil de retrato intelectual de uma relação amorosa rara, com Hustvedt e Auster a surgirem como criadores que partilharam não apenas uma vida, mas uma visão do mundo, como que “dialogando” para encontrar uma resistência ao desaparecimento. Essa “luta” e desafio, remete-nos, por vezes, para os exercícios literários de autores como Joan Didion ou de Roland Barthes, dois nomes que ousaram enfrentar e debater o luto, a perda.

Aquilo que Fantasmas faz é uma ode ao que permanece, às memórias, aos atos que ficam e que remetem para os ecos invisíveis das pessoas que amamos, sendo a literatura uma tentativa, entre a imperfeição, a dor e a beleza, de fixar o que o tempo insiste em apagar.



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