“Contos Completos” de Roberto Bolaño
Culto em forma de pequenas (grandes) histórias
O chileno Roberto Bolaño é uma das figuras maiores do panorama literário contemporâneo. Esta unânime constatação baseia-se na sua obra de exceção, onde se exploram diferentes quadrantes como a violência, a melancolia e a obsessão literária, principalmente em livros mais extensos como os seminais 2666 e Os Detetives Selvagens.
Mas, o que muitos ainda não conhecem são as narrativas mais curtas de Bolaño, contos que se assumem como túneis existenciais onde literatura e loucura andam de mãos dadas e podem agora ser lidos em Contos Completos (Cavalo de Ferro, 2026), obra que reúne (praticamente) todo o universo literário do escritor chileno condensado em pequenas explosões narrativas.
“Pequenas” talvez nem seja a palavra certa, pois, mesmo quando escreve dez ou vinte páginas, Bolaño consegue criar a sensação de que existe um romance inteiro escondido por trás de cada frase, trazendo à vida personagens em constante inquietação, sempre à deriva entre países, fracassos e fantasmas literários.
Todos esses ingredientes estão presentes em Contos Completos e divididos em sete “órbitas”, como que capítulos que funcionam como um mapa secreto da obra de Bolaño.
Entre alguns dos textos mais marcantes está Sensini, que abre as hostilidades da secção Telefonemas, um hino à melancólica que acompanha a amizade epistolar entre um jovem escritor e um autor esquecido que sobrevive participando em concursos literários menores. Fracasso, literatura e dignidade misturam-se e resultam numa declaração de amor aos escritores “invisíveis”.
Outro momento marcante é Últimos Entardeceres na Terra, terceiro tomo de Putas Assassinas onde Bolaño explora a relação desconfortável entre pai e filho durante uma viagem ao México. O conto,roça a simplicidade e “banalidade”, mas cria lentamente uma atmosfera de ameaça emocional muito típica do autor.

Já em O Olho Silva, outro OVNI em Putas Assassinas, frequentemente apontado como um dos melhores textos curtos de Bolaño, a melancolia é trocada por uma mistura entre violência política, culpa e errância existencial, resultando numa narrativa que parece uma forma de confessionário e de pesadelo.
Outros contos sensacionais são Dentista, em Putas Assassinas, Enrique Martín, conto patente em Telefonemas e dedicado a Vila-Matas, ou Buba, também em Putas Assassinas, que se traduzem em histórias onde futebol, marginalidade, sexo, literatura e violência coexistem de forma estranhamente natural, dando origem a narrativas caóticas cujo magnetismo nos transporta para um universo cru e humano onde os personagens vagueiam numa desorientação hipnótica e anárquica, entre sonhos (ou pesadelos) desconcertantes.
No final, falemos de personagens que podem ser poetas sem leitores, jornalistas perdidos, criminosos ocasionais, intelectuais decadentes ou viajantes sem destino, tudo deriva em pedaços de obsessão literária que fundem arte, devaneio, intensidade e resistência, ou seja, na assinatura de Bolaño.
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