A Televisão que Não Grita
Leonard e Hungry Paul chega à Filmin e lembra-nos que a ficção não precisa de ser espetacular para ser necessária.
Há uma certa ansiedade na televisão contemporânea. As séries disputam a nossa atenção com reviravoltas de argumento, cliffhangers fabricados, personagens em constante colapso emocional. Tudo tem de ser urgente. Tudo tem de prender. A existência sem ruído — essa forma de vida que a maior parte das pessoas realmente vive — raramente aparece no ecrã sem ser tratada como problema a resolver, como ponto de partida para uma redenção dramática.
Leonard e Hungry Paul, que estreia na Filmin Portugal a 26 de maio, não tem nenhuma dessas urgências. E é precisamente isso que a torna tão surpreendente.
Baseada no romance homónimo de Rónán Hession, publicado em 2019 e entretanto tornado culto, a série acompanha dois amigos nos seus trinta e tal anos numa suburba de Dublin. Leonard passa os dias a escrever para enciclopédias infantis. Hungry Paul vive em casa dos pais, a fazer puzzles e a jogar jogos de tabuleiro. Nenhum dos dois sente que a vida está incompleta. Não há um antagonista. Não há uma corrida contra o tempo. O que há é a morte da mãe de Leonard, que o obriga a olhar para si de outra forma — e uma amizade que funciona como âncora silenciosa ao longo dos episódios.
A produção, da BBC e da RTÉ, teve a sensatez de não trair o espírito do livro. Andrew Chaplin dirige com uma contenção que poderia ser acusada de televisão menor se não fosse tão claramente intencional. Alex Lawther como Leonard e Laurie Kynaston como Hungry Paul comunicam com o corpo e com o silêncio, numa época em que as personagens televisivas tendem a dizer em voz alta tudo o que sentem. A narração de Julia Roberts — sim, Julia Roberts — poderia ser uma excentricidade de marketing. É, na prática, um filtro de distância afetiva que funciona.
O que a série propõe é quase subversivo: que uma existência discreta, sem ambição épica, pode ser profundamente digna. Num momento em que a televisão de prestígio celebra os torturados (os Don Draper, os Tony Soprano, os Roy Roy), Leonard e Hungry Paul são personagens que simplesmente não querem ser notadas — e a câmara trata esse desejo com respeito genuíno.
É também uma ode à introversão que não a confunde com solidão patológica. Não há aqui uma narrativa de superação em que os tímidos aprendem a ser extrovertidos. Os dois protagonistas não “crescem” no sentido em que a televisão normalmente entende crescimento — não ficam mais barulhentos, mais ambiciosos, mais presentes nas festas. Ficam mais conscientes de si. É uma distinção pequena e muito importante.
Leonard e Hungry Paul chegou ao Reino Unido em outubro de 2025 e foi imediatamente acarinhada pela crítica e pelo público como uma raridade: televisão que não exige que você esteja em alerta máximo para a acompanhar. Pode-se ver com atenção parcial e ganhar qualquer coisa. Pode-se ver com atenção total e ganhar muito mais.
Num catálogo de streaming em que o algoritmo favorece o conteúdo que maximiza o tempo de visualização através de tensão narrativa, a Filmin tem feito um percurso consistente a programar exatamente o oposto. Esta série encaixa nessa identidade como poucas.
Não é uma série perfeita. Há momentos em que a quietude se aproxima demasiado da imobilidade. Mas a sua imperfeição é humana, no melhor sentido — do mesmo tipo das imperfeições das personagens que retrata.
Numa televisão que não para de gritar, Leonard e Hungry Paul fala baixinho. Vale a pena inclinar a cabeça para ouvir.
Leonard e Hungry Paul, temporada 1 — disponível na Filmin Portugal a partir de 26 de maio de 2026.
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