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Song Of Ice & Fire

O que torna tão especial a história dos irmãos Stark?

Com a chegada à televisão portuguesa da série “Game Of Thrones”, agendada para dia 17 de Outubro, a altura não podia ser melhor para revisitar a épica saga escrita por George R. R. Martin e tão fielmente trazida ao pequeno ecrã pelas mãos capazes da HBO. O que torna tão especial a história dos irmãos Stark?

Muito mais ainda do que outros cantos da literatura de género, o Fantasy (uso o termo anglo-saxónico porque o português “fantástico” não é um equivalente directo – H.P. Lovecraft não é Fantasy, por exemplo) é facilmente menosprezado. O próprio nome levanta logo acusações de infantilidade e escapismo. E, com honrosas excepções (há sempre honrosas excepções), é verdade que uma grande parte do que é escrito (e mesmo do que tem sucesso) dentro do género faz jus a essas críticas. Narrativas épicas com grupos de heróis a lutar contra um mal maior (um modelo que Tolkien inventou e que ninguém até agora fez melhor que ele) de um lado, histórias sórdidas com guerreiros másculos a cortar goelas e violar donzelas do outro (a influência de Robert E. Howard, mas Deus sabe que este não tem culpa das incontáveis imitações rascas a que deu azo). Às vezes parece que o leitor tem apenas uma escolha entre o assexual e o sexualmente retardado, entre um Bons Vs Maus simplista e um niilismo barato, entre escrita de pré-puberdade ou de puberdade frustrada.

Há sempre mais, claro. E nas últimas décadas, se o fã inteligente de Fantasy tem um nome a apontar para convencer um novato de que há vida no género, George R.R. Martin será sem dúvida um dos candidatos principais. A sua saga “Song Of Ice & Fire”, iniciada em 1996 e que conta actualmente com cinco volumes, desperta o tipo de paixões que só mesmo uma obra realmente maior pode despoletar. No papel, os clichés do estilo estão todos lá batidos: o cenário semi-medieval, a luta contra um grande mal que se aproxima lentamente, as ruínas de civilizações antigas, sim, até mesmo a magia e os dragões. Mas o recurso a novos enfoques e abordagens faz com que “A Song Of Ice & Fire” tenha um sabor absolutamente distinto.

É uma tarefa árdua descrever uma série composta por cinco enormes calhamaços; tanto do que a torna especial vai evoluindo à medida que a acção se desenrola, governos colapsam, fortalezas são tomadas, traições planeadas. Uma das primeiras coisas que um novato aprende ao experienciar a saga é que há uma alta probabilidade de que a sua personagem favorita vá morrer algures no meio do livro. É um autêntico spoiler heaven. Mas há alguns traços gerais dos quais podemos falar sem estragar a festa a ninguém.

Uma das coisas que Martin melhor domina enquanto escritor é o conceito de intriga política. “A Song Of Ice & Fire” é diabolicamente perspicaz acerca dos compromissos e das maquinações associadas ao poder político. E se o cenário obriga a que isto tome o papel da courtly intrigue, nem por isso as manobras e traições dos lordes são irrelevantes para a nossa realidade actual. Não falamos de escapismo, porque apreendemos instintivamente quão próximas estão as realidades destas cortes fantásticas às dos centros políticos e económicos do nosso mundo. Os sistemas mudam, mas uma coisa tão elementar como a sede do poder não se modifica.

De facto, apesar dos seus claros traços medievais, os dramas da obra de Martin tendem para o universal. Como diz o próprio, numa declaração recentemente citada no “Onion AV Club” (tradução minha):

“Carros ou cavalos, tricórnios ou togas, armas de raios laser ou revólveres do faroeste, nada disto importa, desde que fiquem as pessoas (…) Podemos traçar as nossas fronteiras e inventar os nossos rótulos, mas no fim é sempre a mesma velha história, a história do coração humano em conflito consigo mesmo. O resto, meus amigos, é mobília.”

São as pessoas que importam a George R. R. Martin, e ele consegue traçar personagens que divertem, assustam e fascinam: Tyrion Lannister, o cáustico anão, cínico até ao osso e mesmo assim um romântico, o favorito de todos os leitores; Daenerys, jovem princesa sem trono arrastada por incontáveis martírios e que emerge mais forte de cada um deles; Jon Snow, filho bastardo com tanto para provar; Ned Stark, o epítome do homem pacífico permanentemente arrastado para o conflito pelo seu enorme sentido de responsabilidade. No momento em que as personagens são introduzidas, podem parecer unidimensionais, boas ou más sem ambiguidades; mas dêem páginas suficientes a Martin, e cada uma delas tem pecados, cada uma delas virtudes escondidas.

A nossa visão das personagens muda à medida que entramos nas suas cabeças (um aspecto interessante de “A Song Of Ice & Fire”, e um dos poucos que se perde irremediavelmente com a adaptação televisiva, é que em cada volume os capítulos são distribuídos pelas perspectivas de um leque cada vez maior de protagonistas), mas também as próprias personagens mudam. De facto, parte do que faz a obra de Martin tão realista na sua descrição da guerra é o enfoque que dá não às batalhas, mas às consequências da actividade bélica. As relações de poder flutuam com cada vitória, as personagens movem-se como peças de xadrez neste jogo de tronos, mas o autor não esquece a sua humanidade, e explicita como esses movimentos abstractos têm consequências nas vidas das pessoas. Chegado ao volume mais recente, “A Dance With Dragons”, multiplicam-se os intervenientes que já não são o que eram: no seu estatuto, nos seus afectos e, num caso extremo, na sua própria noção de identidade. O trauma da guerra paira sobre Westoros, e no coração humano a batalha prossegue.



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