Gisela Mabel | Entrevista
"Eu sou uma pessoa muito curiosa e aberta. Gosto de explorar, não costumo rejeitar estilos ou ideias. E isso reflete-se na minha música."
Coube a Gisela Mabel a abertura do palco Coreto na edição 2025 do NOS Alive, com um belíssimo concerto, sobre o qual podem ler aqui. Depois do concerto falámos com ela no backstage sobre o seu percurso; passado, presente e futuro.
Esta entrevista é publicada, alguns dias após Gisela Mabel ter sido anunciada como a vencedora na categoria de “Melhor Álbum de Jazz do Ano” nos prémios SoloPiano, fundados pelo pianista e compositor norte-americano Matthew Mayer, naquele que é, mais um passo de afirmação no percurso de afirmação da pianista e compositora.
[Rua de Baixo – RDB] Para começar, queria perguntar-te: quem é a Gisela Mabel? Fala-nos um pouco de ti e do teu percurso.
[Gisela Mabel – GM] Gisela Mabel… gosto de pensar que sou uma pessoa simples e verdadeira comigo própria. A música começou cedo na minha vida. Lembro-me de ser miúda e andar agarrada aos comandos da televisão, a fingir que eram microfones, a cantar.
O meu sonho, nessa altura, era ser dançarina, mas não foi por aí que seguiu. Comecei a tocar piano aos 14 anos. A minha família mudou-se para uma casa onde, por acaso, a senhora deixou lá um piano. Foi mesmo por acaso — ela não o quis transportar, e pronto, lá ficou o piano.
Fiquei logo fascinada. Queria muito tocar, mas a minha mãe não me deixava, dizia que o piano estava velho e desafinava. Eu insisti tanto que acabei por ir aprender.
E quando comecei a tocar, percebi logo que era aquilo que me fazia sentir bem. Ainda não sabia se queria seguir isso profissionalmente, mas sabia que fazia parte de mim.
Depois fui para o conservatório, estudei música clássica. Mais tarde fui para a faculdade estudar uma coisa que não tinha nada a ver, mas ao terminar percebi: “não, eu tenho mesmo de investir na música”. É aqui que eu sou feliz.
Fui estudar jazz. Tive também um contacto breve com música brasileira. E comecei a pensar: “por que não compor as minhas próprias músicas?” Sempre toquei músicas de outros, mas talvez tivesse também algo a dizer.
Em 2021 lancei o meu primeiro single, Sonho de Abril. Peguei no piano, liguei o computador e gravei. Era algo que precisava de desbloquear. E foi esse o momento.
Demorei algum tempo até lançar o meu primeiro EP, porque a vida tem os seus custos, literalmente. Tive de trabalhar, juntar dinheiro, fazer uma campanha de financiamento… E foi assim que consegui lançar o EP.
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[RDB] O teu trabalho reflete influências variadas. Nota-se um lado clássico, ligado ao piano, e também essa vertente mais contemporânea, quase neoclássica — com nomes como o Nils Frahm, por exemplo. Há também o jazz… Outro dia, estava a ouvir um podcast do Martim Sousa Tavares, onde ele falava sobre o concerto de Köln do Keith Jarrett. Lembrei-me logo do teu EP, especialmente da primeira faixa — tem toques de improviso, uma leveza muito própria. No teu caso, há uma combinação interessante entre estrutura e espontaneidade. Além disso, há uma presença clara das tuas raízes culturais, que se fez notar no concerto. Como é que isso tudo se combina nas tuas composições?
[GM] Eu sou uma pessoa muito curiosa e aberta. Gosto de explorar, não costumo rejeitar estilos ou ideias. E isso reflete-se na minha música. Oiço de tudo — pop, samba, jazz clássico, música electrónica. E acho que tudo isso fica no meu inconsciente. Quando me sento ao piano, não planeio: “agora quero fazer jazz” ou “agora algo mais clássico”… As coisas simplesmente saem.
[RDB] Tu foste convidada para integrar a coletânea do Piano Day, com o tema Translucent. Como é que isso surgiu?
[GM] Tinha acabado de lançar o EP. Estava super cansada, em modo “loop”. Trabalhava oito horas por dia, chegava a casa e compunha até às quatro da manhã.
Lancei o EP e pensei: “agora vou descansar, não quero ouvir música durante uma semana”. E nesse momento… recebo um e-mail com o convite.
Primeiro nem acreditei. Fiquei a pensar: “Eu? Mesmo?” Mas ao mesmo tempo já estava a pensar: “lá se vai a minha semana de descanso!”.
[RDB] Tiveste pouco tempo para compor, certo?
[GM] Sim. Tinha duas semanas para entregar a música. Convidei o Iúri, que esteve hoje aqui comigo, e disse: “quero algo com piano e percussões, vamos a isso?” E pronto, passámos duas semanas intensas a compor e gravar. Enviámos, e eles gostaram. Foi tudo muito rápido, mas valeu muito a pena.
[RDB] Falando do Iúri… há sempre algo mais nas tuas composições além do piano — seja percussão, seja outro instrumento que enriquece a música. É uma escolha consciente?
[GM] Sim. Quando estou a compor, já estou a ouvir os outros instrumentos na minha cabeça. Fazer algo só com piano é uma grande responsabilidade.
Não que não queira — pelo contrário, quero muito. Mas sinto que ainda preciso aprofundar muito mais para isso. É como se tivesse de ir buscar algo muito lá dentro, das entranhas mesmo.
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[RDB] E como sabes quando uma composição está pronta?
[GM] Essa parte é difícil. Parece que nunca está terminada. Tento manter alguma disciplina, pensar: “ok, já comuniquei o que queria”, senão fico eternamente a mexer.
[RDB] Lembro-me de ouvir uma das tuas músicas e imaginar um tango. Tem aquela energia, o drama, o crescendo… É música para ser sentida a dois. Isso acontece de forma deliberada?
[GM] Nem sempre. Às vezes penso: “esta parte está muito intensa, agora precisa de respirar”. Mas no geral, tudo flui de forma natural.
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[RDB] Já estás a trabalhar num álbum? Ou ainda estás a aproveitar o momento do EP?
[GM] Acho que estou a começar a desligar-me do EP, até em termos de composição. Há sempre aquele risco de repetirmos a fórmula, mas estou a dar tempo ao tempo. O álbum virá naturalmente.
[RDB] Ainda não há prazos então. Para terminar: o concerto no NOS Alive foi especial. Achas que o teu projeto se encaixa num festival como este?
[GM] Se me dissesses há uns tempos que ia tocar no NOS Alive, eu não acreditava. É um palco enorme, com tanta visibilidade. Foi mesmo especial.
[RDB] Obrigado, Gisela. Foi um prazer.
[GM] Obrigada eu.
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