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NOS Alive! 2015 | Dia #1 (09-07-2015)

A primeira enchente

Festivais a começarem à Quinta-feira têm vantagens e desvantagens. Levam a que o último dia seja Sábado e que se tenha o Domingo para recarregar as baterias convenientemente, o que é bom. Mas Quinta-feira também é dia de trabalho e torna-se impossível para muita gente chegar a horas para ver tudo do início, com a agravante de ser dia de lotação esgotada. Aliás, esta era a primeira de três certezas que se podiam ter. A segunda era que o triunfo dos Muse era um dado adquirido. Já a terceira era a garantia de ir ter de encarar filas gigantescas para tudo: para comer, para levantar dinheiro, para bebida, para ir à casa-de-banho… Mas passemos ao que realmente interessa nesta reportagem do primeiro dia do NOS Alive! 2015.

The Wombats. Confesso que a primeira coisa que pensei quando os ingleses foram anunciados foi algo do tipo “mas estes gajos ainda existem?”. Pois é. Ainda existem e parece que não mudaram nada, o que acaba por não funcionar a seu favor porque quase tudo em seu redor mudou.

Señores. O nome não engana. São espanhóis e marcaram presença no Alive! fruto de um intercâmbio com o festival basco Bilbao BBK Live. Na sua sonoridade são evidentes influências dos 90’s. Rock, com todas as guitarras a que temos direito e que não envergonham ninguém.

Os Young Fathers eram o primeiro prato forte do dia. Com o Mercury 2014 na bagagem e uma atitude muito própria, era imperativo vê-los. O concerto até nem começou bem; pouco público e com o som demasiado alto. Alloysious Massaquoi, Kayus Bankole e ‘G’ Hastings tiveram de lutar para se conseguir impôr. A verdade é que foram invertendo a tendência e acabaram por dar um tremendo concerto. As canções dos Young Fathers são um reflexo da diversidade cultural da própria banda e do meio em que vivem. Garage, Hip Hop, Pop servidos com muita personalidade e uma crítica social certeira e atroz, bem patente em «Shame» ou «Get Up», com aquela batida diabólica do primeiro ao último segundo.

Os Capitão Fausto foram a solução de recurso para o cancelamento de última hora de Jessie Ware (na minha face surge uma expressão de tristeza enquanto escrevo estas linhas). A banda portuguesa cumpriu com o seu rock pincelado de psicadelismo, que lhes terá valido alguns novos convertidos à causa.

Estas linhas custam um pouco a escrever. Ben Harper já foi grande. Em Portugal foi mesmo enorme. Depois algo mudou. Ben Harper mudou, o público português mudou. No fundo, o tempo passou. Essa aura dourada já não paira por ali. Em palco Ben Harper parece perdido e nem mesmo grandes canções como «Steal My Kisses», «Diamonds on the Inside», «Amen Omen» ou «Burn One Down» são suficientes para salvar uma actuação mediana.

Os Metronomy já estiveram no NOS Alive!. Aí traziam consigo o doce aroma da novidade. Dois anos volvidos, encontramos uma banda mais madura e confiante. Uma clara mais-valia que os ajuda no momento em que as canções de “Love Letters” têm de rivalizar com as de “English Riviera”. É que «The Look» ou «Everything Goes My Way» são e continuarão a ser melhores canções do que «I’m Aquarius» ou «Love Letters».

Sobre os Alt-J poder-se-ia facilmente escrever uma dissertação mas não o vou fazer. Os ingleses têm o mérito de ter criado uma sonoridade verdadeiramente única. É quase impossível não os reconhecer de imediato quando escutamos as suas canções mas no palco NOS parecem perdidos. É demasiado grande. A candura e beleza de canções como «Something Good», «Matilda», «Tesselate», «Taro» e «Breezeblock» exigem ambientes mais exíguos e intimistas. É dessa forma que elas realmente se mostram e florescem com toda a sua grandeza. Ali perdem-se um pouco. A juntar a isso, “This Is All Yours” está a anos-luz do brilhante “An Awesome Wave”. Voltem para tocar no coliseu e será épico. Naquele palco, não.

Enquanto os Muse tocaram, os restantes palcos ficaram mergulhados no silêncio. Não devia ser assim mas é algo que o estatuto de alguns acaba por conseguir levar avante cada vez mais frequentemente nos festivais. Os ingleses tinham tudo a seu favor; uma gigante falange de fãs sedenta para os receber e um álbum fresquinho na bagagem. Não defraudaram as expectativas de ninguém. Com os Muse é tudo à grande e Bellamy encarrega-se disso. Nos solos de guitarra, talhados para ambientes como aquele que o palco NOS proporciona ou nas projecções que invocam teorias da conspiração, a vigilância a que estamos sujeitos pelos governos e grandes corporações. Depois as canções ganham vida própria e incendeiam a plateia quase imediatamente. «Supermassive Black Hole» e «Plug In Baby» surgem logo no início. Pelo meio há «Supremacy» e «Time Is Running Out». Guardado para o encore fica «Knights of Cydonia». Depois houve tempo para respirar. O concerto perfeito para os fãs. Competente e eficaz para os restantes. Por muito que se tente, não é possível agradar a gregos e a troianos.

Há dois anos os Django Django incendiaram o palco Heineken. Este ano repetiram a dose. Aquele rock-psicadélico-pop-ultra-dançável é contagiante até mais não e consegue colocar os resistentes (o final do concerto dos Muse foi seguido por uma monumental debandada) a queimar os últimos cartuxos do primeiro dia.

Fotografia por José Eduardo Real. Galeria do primeiro dia aqui; segundo dia aqui.



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