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Grim Trials — análise Nintendo Switch

Um roguelite de foice e riffs pesados que empresta muito a Hades e ainda não paga toda a dívida técnica.

Um roguelite de foice e riffs pesados que empresta muito a Hades e ainda não paga toda a dívida técnica.

A Soft Source e o estúdio indie indonésio Rolling Glory Jam lançaram, a 20 de agosto de 2026, “Grim Trials”, um roguelite de ação inspirado abertamente em Hades, disponível para PC, Xbox, PlayStation 5 e Nintendo Switch, incluindo a Switch 2. No papel de Avelin, uma aprendiz de ceifadora em busca de reencontrar quem deixou para trás, o jogador atravessa salas geradas proceduralmente ao som de uma banda sonora de heavy metal muito bem recebida pela crítica internacional. Disponível por 19,99€ na eShop, esta análise de Grim Trials avalia a versão Switch, onde o desempenho tem sido o ponto mais debatido.

A primeira impressão: um casulo entre foices e riffs

Grim Trials abre com Avelin, apelidada de “casulo” enquanto aprendiz de ceifadora, a atravessar as primeiras salas da Academia onde os Reapers de Death treinam. A premissa é simples e eficaz: Avelin morreu antes da hora e aceita o treino para poder voltar a ver quem ama, uma figura referida apenas como “ele” ao longo da narrativa. Não é uma introdução original, mas cumpre o objetivo de dar peso emocional a cada tentativa fracassada, um elemento essencial num roguelite.

A direção artística segue de perto a estética 2D desenhada à mão que tornou Hades um sucesso: paletas fortes, salas compactas e inimigos bem legíveis em ecrã. Grim Trials não esconde a inspiração, e essa honestidade acaba por funcionar a seu favor nos primeiros minutos, quando o jogador reconhece rapidamente as regras do género e entra no ritmo de jogo sem grande fricção.

Grim Trials — Avelin na Academia dos Reapers
Avelin, a protagonista, treina para se tornar uma Reaper de pleno direito.

Jogabilidade: o que funciona (e o que não)

O combate assenta em dois tipos de arma empunhados em simultâneo: a foice, com um golpe frontal de área generosa, e a besta, para ataques à distância. Armas alternativas, como o martelo, trocam alcance por dano de impacto, o que permite construções de jogo bastante distintas consoante o equipamento escolhido. Não existe bloqueio direto — a única defesa é uma esquiva rápida em avanço, complementada por Bênçãos concedidas pelos deuses da morte, algumas das quais permitem refletir ou anular ataques inimigos em momentos-chave.

A progressão passa por forjar equipamento e vestuário com atributos específicos, recorrendo a um minigame de forja que pode conceder o estatuto de “obra de arte” a uma peça, com bónus adicionais. É um sistema satisfatório quando funciona, mas depende de materiais obtidos de forma aleatória, o que transforma o processo de melhoria de equipamento em grinding por vezes desgastante — sobretudo a partir da segunda das sete almas pecadoras, onde a dificuldade dá um salto acentuado.

Grim Trials — combate com foice e besta
O combate combina foice e besta empunhadas em simultâneo.

História e mundo: sete almas e uma promessa

A narrativa gira em torno das sete almas pecadoras que Avelin precisa de enfrentar, um esqueleto temático óbvio mas eficaz para dar estrutura ao progresso pela Academia. À sua volta orbita um elenco secundário com identidade própria: John, o ex-ceifador que serve de mentor; Pytra, uma pequena chama azul responsável pela forja; Milyun, um híbrido de aranha que trata da alfaiataria; e Ivanya, a bruxa das poções. As side quests associadas a cada um destes mentores aumentam a afinidade com Avelin e, ainda que não reinventem a fórmula, ajudam a humanizar a Academia.

O texto está bem escrito e localizado, com jogos de palavras que resistem à tradução, embora as cenas com voz continuem em inglês. É uma narrativa sem grandes ambições, mas que cumpre o que promete: dar sentido emocional a um ciclo de vida, morte e nova tentativa que é, por natureza, repetitivo.

Grim Trials — elenco de mentores na Academia
John, Pytra, Milyun e Ivanya guiam Avelin ao longo da sua formação.

Gráficos, som e desempenho

Se há um argumento incontestável a favor de Grim Trials, é a banda sonora. É heavy metal genuíno, bem produzido e escrito com intenção, com riffs que acompanham o ritmo dos combates e solos que surgem nos momentos certos — um dos trabalhos sonoros mais consistentes vistos recentemente num indie deste porte. Estamos perante uma referência sonora que, por si só, já é motivo suficiente para curiosos do género.

O mesmo entusiasmo não se pode aplicar ao desempenho na Switch. A crítica internacional, incluindo análises portuguesas e brasileiras, tem apontado quebras de frame rate durante o combate mesmo no hardware mais recente da Nintendo, um problema sério num jogo onde a precisão dos movimentos é central. A isto soma-se um ecrã de arranque que não mostra qualquer indicação de carregamento, facilmente confundido com um bloqueio total do sistema, e tempos de carregamento lentos ao entrar e sair de certas zonas, como as arenas de prática e desafios. São falhas que pesam mais do que deveriam num título que, de resto, tem uma direção artística cuidada.

Grim Trials — sala de combate com inimigos
As salas de combate variam em composição de inimigos

Vale a pena comprar Grim Trials?

Para quem gosta de roguelites de ação e não se importa de reconhecer a dívida a Hades, Grim Trials oferece um combate ágil, uma variedade de inimigos que mantém cada tentativa distinta e uma das melhores bandas sonoras do género em anos recentes. É, no entanto, um “indie do indie”, como lhe chamou a imprensa brasileira: falta o polimento técnico e a densidade artística que separam os grandes nomes do género dos seus imitadores mais competentes.

Ao preço de 19,99€, Grim Trials situa-se numa faixa justa para o que oferece, sobretudo tendo em conta a extensão da árvore de habilidades e a quantidade de conteúdo pós-lançamento típica do género.

Grim Trials não tenta disfarçar as suas referências, e essa transparência acaba por ser o seu maior trunfo: sabe exatamente o que quer ser e entrega-o com convicção, sobretudo ao nível sonoro. Os problemas técnicos na Switch, porém, não podem ser ignorados numa análise honesta, especialmente num jogo que depende tanto de precisão de combate. Fica a expectativa de que patches futuros resolvam as quebras de frame rate e os tempos de carregamento, o que elevaria consideravelmente a experiência. Por agora, é um roguelite recomendável para fãs do género com paciência para as suas arestas por polir.



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