“Gone”: o desaparecimento é só a superfície do que esta série quer mesmo mostrar
Estreada em exclusivo na Filmin a 31 de agosto, Gone usa os seis episódios da sua duração para fazer o que poucos thrillers policiais se dão ao luxo de fazer: parar, olhar e deixar que a fotografia e o tempo façam o trabalho pesado.
Há uma tentação óbvia em qualquer thriller sobre um desaparecimento: acelerar. Empilhar reviravoltas, cortar cena a meio da frase, transformar cada episódio numa corrida contra o relógio. Gone, a nova minissérie de Richard Laxton criada e escrita por George Kay (Lupin, The Long Shadow), recusa esse atalho — e é exactamente por isso que funciona.
A premissa é simples, quase clássica: Michael Polly (David Morrissey), diretor de uma escola privada, regressa a casa e descobre que a mulher, Sarah, desapareceu. A reação dele — controlada demais, cedo demais — desperta a desconfiança da inspetora Annie Cassidy (Eve Myles), que assume o caso como oficial de ligação à família e começa a puxar o fio de uma meada onde ninguém é exatamente quem parece ser. Até aqui, terreno familiar do policial britânico contemporâneo. O que distingue Gone é a forma como se recusa a despachar essa premissa em três episódios de exposição acelerada.
Uma fotografia que sabe do que fala
O primeiro elemento a saltar à vista é o trabalho de imagem. Laxton — realizador com BAFTA, autor de séries como Mrs Wilson e The Thief, His Wife and the Canoe — trata cada plano com um rigor que raramente se vê em televisão de género. A câmara não tem pressa: os interiores da casa dos Polly são filmados com uma luz fria e cirúrgica que transforma a domesticidade em algo vagamente hostil, enquanto os exteriores — a escola, as ruas suburbanas, os espaços institucionais da investigação — ganham uma textura quase documental. Não é fotografia decorativa; é fotografia que argumenta. Cada enquadramento parece perguntar ao espetador “o que é que não estás a ver”, e é essa tensão visual, mais do que qualquer twist de guião, que sustenta a atmosfera de suspeita generalizada que a série quer construir.
O tempo como ferramenta narrativa
E depois há o ritmo — decerto o elemento mais discutido pela crítica britânica, e o mais interessante de defender. Gone é, sem pudor, uma série lenta. Não há pressa em revelar, não há necessidade de resolver cada episódio com um gancho espetacular. Esse espaço extra é usado, e bem, para deixar Michael e Annie existirem como personagens antes de existirem como peças de xadrez de um enigma. Morrissey constrói o marido/diretor de escola como um homem que aprendeu a gerir aparências a vida toda — a contenção quase estática do desempenho é, lida com generosidade, o ponto: um homem treinado para nunca deixar transparecer o que sente, mesmo quando devia. Eve Myles, por seu lado, tem espaço para fazer de Annie mais do que uma investigadora funcional: vemo-la duvidar, errar o tom, ser subestimada pelos colegas — o guião dá-lhe tempo para isso, e ela aproveita cada segundo.
É essa decisão de produção — dar tempo à história em vez de comprimi-la — que separa Gone de tantos outros thrillers de desaparecimento que preferem confundir velocidade com tensão. Aqui a tensão nasce da observação prolongada: de ver os mesmos rostos, os mesmos espaços, revisitados episódio após episódio até que os pequenos gestos começam a pesar mais do que qualquer revelação explícita.
Nem tudo é perfeito
Isto não quer dizer que a série seja isenta de problemas. Alguma crítica britânica notou, com razão, momentos de escrita menos cuidada — nomeadamente diálogos que colocam em causa decisões da personagem principal de forma pouco consistente com a cronologia dos acontecimentos — e o próprio ritmo contemplativo pode testar a paciência de quem procura um policial mais convencional, de reviravoltas rápidas. Mas são reparos menores face ao que a série consegue: um retrato sombrio e bem construído sobre a distância entre aparência e verdade, apoiado num elenco sólido (Emma Appleton, Billy Barratt, Clare Higgins) e numa direção que confia na imagem para fazer parte do trabalho narrativo.
Inspirada parcialmente no livro To Hunt a Killer e na experiência real de uma antiga detetive-superintendente da polícia de Gloucestershire, Gone não inventa o género — mas lembra, com uma disciplina rara, que um bom thriller psicológico não precisa de gritar para ser eficaz. Às vezes basta filmar bem, esperar o tempo certo, e deixar que sejam as personagens — não os acontecimentos — a puxar o espetador para dentro da história.
Gone está disponível em exclusivo na Filmin desde 31 de agosto, em seis episódios.
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