“Portofino Blues” de Valerio Aiolli
O crepitar da dolce vita ante o voyeurismo da tragédia
Algumas tragédias reais, mais ou menos mediáticas, recusam a pacificação do tempo e encontram na literatura o seu terreno verdadeiramente revelador e forma de alojar na memória pormenores esquecidos ou ignorados.
Uma dessas tragédias teve lugar na noite fria de 8 de janeiro de 2001, no caso o desaparecimento da condessa Francesca Vacca Agusta da sua apoteótica Villa Altachiara, em Portofino, comuna italiana da região da Ligúria, província de Génova, Itália, seguido da descoberta do seu corpo na costa francesa semanas depois, inaugurando no século XXI a fome voraz do voyeurismo mediático.
Contudo, em Portofino Blues (Quetzal Editores, 2026), o autor florentino Valerio Aiolli recusa liminarmente o sensacionalismo mastigado do true crime habitual.
Nomeado para o prestigiado Prémio Strega, tendo sido sem-finalista na edição de 2026, Aiolli, autor de sete romances até à data, constrói uma engrenagem narrativa que funciona como uma matrioska elegante e impiedosa.
A arquitetura do romance assenta numa rigorosa montagem dual, tendo, por um lado, capítulos que integram o “Dentro”, representando a reconstituição claustrofóbica e quase sensorial do último dia de vida da condessa; por outro, o “Fora”, relatos da ressonância judicial, das audições e do escárnio nascido da análise mediática, em especial da televisão, criando um mosaico de memórias que tentam fixar a imagem de uma mulher esquiva.
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Francesca é, naturalmente, o centro magnético do romance. Mas não é uma personagem que Aiolli procure tornar confortável. A sua personalidade emerge feita de contradições: ambição, beleza, inteligência, desejo de ascensão social, capacidade de sedução e uma espécie de obstinação que tanto a aproxima como a afasta dos outros. Mais. Francesca não é apenas a mulher que morreu. É também a pessoa que, em vida, se tornou personagem pública. E quando uma pessoa passa a ser uma personagem, sobretudo numa sociedade fascinada pelo dinheiro e pelo espetáculo, a verdade sobre ela começa a misturar-se com aquilo que os outros querem ver.
Mas é na mestria com que manipula os cenários que Aiolli eleva o livro. A Villa Altachiara, que ficamos a saber ser o soberbo palacete debruçado sobre a falésia que serviu de inspiração à estética de Downton Abbey, deixa de ser mero pano de fundo ou cena para assumir a condição de personagem moribunda. Depois, através de uma fronteira delicada entre documentação e imaginação, dispõe factos, testemunhos ou elementos do processo, aproximando-se do rigor do cronista. Já quando “entra” na cabeça das personagens, permite a ficção, explora pensamentos, pulsões e sentimentos que nunca poderiam ser conhecidos de forma objetiva.
Além disso, há ainda a revisitação espaço-temporal entre a ilha de Hammamet (sombra do exílio corrupto da política italiana da década de 1990 com Bettino Craxi, ex-primeiro-ministro italiano, como uma das figuras maiores desse complexo período), o sol gélido do México e a opulência fria de Milão, geografias onde se desenrola uma lenta acumulação de bastidores. O luxo, omnipresente, surge desprovido de encanto: é a “divina sprezzatura” que esconde disputas de heranças, dependências silenciosas, paranoia e o tédio avassalador que corrói os ultrarricos.
Com uma narrativa subtil e cirúrgica, e que o leitor precisa de tempo para se adaptar às partilhas soltas e algo erráticas de informação, em especial no início do livro, Aiolli não está interessado em entregar uma resposta fácil para o mistério entre a queda acidental, o homicídio ou o suicídio. Isso porque o seu objetivo é mais ambicioso, querendo esculpir a autópsia de uma época.
Consegue-o com distinção, à boleia de uma prosa melancólica, pontuada por um humor amargo e requintada ironia, enquanto expõe a metamorfose da dor individual numa sociedade onde tudo ou quase são produtos de consumo rápido. Pois, enquanto os canais mais sensacionalistas debatem detalhes macabros e a televisão nacional usa melodias de Ennio Morricone para dar cor à tragédia, o leitor é confrontado com o espelho da sua própria cumplicidade voyeurística.
Por tudo isso, Portofino Blues, assume-se como um noir hipnótico e, claro, melancólico, cuja densidade da sua leitura é sinónimo da cadência ritmada de um bom filme de suspense, mas que deixa no palato o travo acre e inconfundível do fim de uma era e de um certo glamour.
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