Queer Lisboa 30: memória, resistência e utopia em festa
O festival celebra três décadas com Ira Sachs na abertura, animação vinda de Cannes no encerramento e 94 filmes a concurso.
O Queer Lisboa celebra este ano a sua 30.ª edição, decorrendo entre 18 e 26 de setembro nos palcos habituais do festival — o Cinema São Jorge e a Cinemateca Portuguesa. Depois de já terem sido anunciadas as Sessões Especiais, o Panorama, a nova secção Queer Family e a Retrospetiva, a organização revela agora os filmes de abertura e encerramento, as cinco competições oficiais, uma sessão especial com conversa, os convidados confirmados e a agenda de festas. Para assinalar três décadas de existência, o festival reafirma os valores que sempre nortearam a sua programação — memória, resistência, utopia e desejo.
Abertura com Ira Sachs, encerramento vindo de Cannes
A Noite de Abertura fica marcada pela antestreia nacional de The Man I Love, novo filme de Ira Sachs — realizador já conhecido do público do festival por Passages e Peter Hujar’s Day. A obra, protagonizada por Rami Malek, Rebecca Hall e Tom Sturridge, passa-se na Nova Iorque dos anos 80, em plena epidemia de sida, revisitando o legado do New Queer Cinema. A sessão contará ainda com uma atuação do coro Alarido — Coro Feminista e LGBT.
O encerramento cabe a Tangles, estreia na realização de Leah Nelson e adaptação da novela gráfica de Sarah Leavitt sobre uma família a lidar com o Alzheimer da mãe. Com vozes de Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston e Seth Rogen, o filme chega de Cannes já apontado como possível candidato ao Óscar de melhor animação.
Cinco competições, 94 filmes, 118 cineastas
O núcleo do festival continua a ser as suas competições oficiais. Na categoria de longas-metragens, concorrem oito filmes, entre os quais La Gradiva, de Marine Atlan (Prémio de Melhor Filme da Semana da Crítica de Cannes), Estrany Riu, do catalão Jaume Claret Muxart (estreado em Veneza), e London, dos brasileiros Victor Di Marco e Márcio Picoli, sobre viver com deficiência — com prémio de 1.000€, atribuído por um júri composto por Kathleen Gomes, Maria João Madeira e Miguel Nunes.
Na competição de documentários, destacam-se oito primeiras obras, incluindo Corren las Liebres, de Lorena Ros, sobre mulheres trans ex-presidiárias na periferia de Barcelona, e Virages, de Céline Carridroit e Aline Sutre — prémio patrocinado pela RTP2, no valor de 3.000€, que inclui a aquisição dos direitos de exibição. Já a competição Queer Art, dedicada aos filmes mais experimentais e transgressivos, apresenta duas estreias mundiais: Life Is about Losing Everything, dos irmãos Ramírez Pérez, e Não Resta Nada, primeira longa de ficção do português André Godinho, com prémio de 1.000€.
Nas curtas-metragens, concorrem 22 títulos, entre os quais A Hora da Estrela, da portuguesa Rita Barbosa, e novos trabalhos de Abdellah Taïa e Maryam Tafakory, com prémio de 500€ patrocinado pela Contranatura. A secção In My Shorts, dedicada a curtas de escolas europeias, reúne dez filmes vindos de instituições como a DFFB, a ESCAC, a National Film & Television School ou o INSAS, com destaque para For Those Who Love, Leave, and Love Again, de Paolo Laganà, também com prémio de 500€. No total, são 94 filmes de 118 cineastas — 51% homens cisgénero, 36% mulheres cisgénero e 13% pessoas trans ou não-binárias, com 25% de cineastas BIPOC —, representando cinematografias tão diversas como México, Filipinas, Suécia, Eslovénia, Irão, vários países africanos e asiáticos, e Portugal.
Resistência Queer, sessão com conversa e nova secção Queer Family
A secção Resistência Queer, no seu terceiro ano, traz quatro documentários de cariz mais pessoal e comunitário, incluindo Cooking Up Democracy, de Monika Treut, filmado em Taiwan, e Desejo de Viver (mutatis mutandis), sobre pessoas trans com deficiência no Brasil. Destaque ainda para uma sessão de cinema com conversa: depois da exibição de La conscience politique, de Léolo Victor-Pujebet, segue-se um diálogo com o realizador e com o filósofo Geoffroy de Lagasnerie, moderado por António Guerreiro (Público/Electra).
A nova secção Queer Family, pensada para um público intergeracional, estreia com dois filmes brasileiros: Feito Pipa, de Allan Deberton, e Papaya, de Priscilla Kellen, ambos em antestreia nacional.
Retrospetiva pelos 30 anos, convidados e festas
Em parceria com a Cinemateca Portuguesa, a retrospetiva “Resgatar Futuros: o cinema queer vê-se ao espelho” reúne 19 títulos em oito sessões duplas, revisitando obras de referência de realizadores como Cheryl Dunye, Kenneth Anger, John Greyson, Sally Potter, as irmãs Wachowski, Lisa Cholodenko ou Yonfan — muitas delas inéditas no festival ou recentemente restauradas.
O festival confirma a presença de vários realizadores e equipas, entre os quais Jaume Claret Muxart, Victor Di Marco e Márcio Picoli, André Godinho, Lorena Ros, Rita Barbosa e Iqran Rasheed, entre outros. As festas do festival regressam a espaços da noite queer lisboeta: o Ministerium recebe a festa de abertura, em colaboração com a mina, seguindo-se noites no Purex Clube, no Drama Bar e no TR3S.
Com um orçamento de 150.000€ e apoios da Câmara Municipal de Lisboa, do ICA e de várias entidades internacionais, o Queer Lisboa 30 abre a venda de bilhetes a partir de 7 de setembro, na bilheteira do Cinema São Jorge e online na BOL. Trinta anos depois da primeira edição, o festival chega a este marco a reafirmar-se como um dos principais espaços de cinema queer em Portugal, cruzando memória e resistência com a aposta contínua em novas vozes do cinema internacional. Mais informações disponíveis na página oficial do festival.
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