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“Agente Zigzag” de Ben Macintyre

Um homem impossível de apanhar

Alguns personagens ficam na História apesar de parecem demasiado improváveis para terem existido. Eddie Chapman é um deles. Criminoso, arrombador de cofres, vigarista, mulherengo e, durante a Segunda Guerra Mundial, agente duplo, passou de prisioneiro dos alemães a espião da Abwehr e acabou por trabalhar para o MI5. É esta vida extraordinária que Ben Macintyre, colunista e editor associado do jornal londrino The Times, tendo trabalhado como correspondente do jornal em Nova Iorque, Paris e Washington, recupera em Agente Zigzag (D. Quixote, 2026).

Entre muitas desventuras, Chapman estava preso em Jersey quando os alemães ocuparam as ilhas do Canal. Para escapar à prisão, ofereceu os seus serviços à Alemanha, foi treinado pela Abwehr e enviado para Inglaterra com uma missão de sabotagem. Assim que aterrou, entregou-se aos britânicos. O MI5 percebeu rapidamente que tinha diante de si um homem perigoso, mas potencialmente muito útil. Chapman tornou-se então um agente duplo, transmitindo aos alemães informação falsa e fornecendo aos britânicos dados relevantes sobre o inimigo.

O extraordinário da história não está apenas nas operações de espionagem. Está sobretudo no homem que as protagoniza, e, acima de tudo, na escrita hábil de Macintyre, que dá a conhecer mais e melhor Chapman, um homem movido pelo interesse próprio, mas também demonstrava coragem genuína. Isto, pois conseguia ser simultaneamente encantador e pouco fiável, oportunista e patriota, criminoso e herói. Os próprios serviços secretos britânicos desconfiaram dele, mas acabaram por reconhecer a sua capacidade. Como observa a crítica do Guardian, era precisamente essa combinação de egoísmo, charme e audácia que tornava Chapman tão difícil de controlar.

Macintyre aproveita essa ambiguidade para construir uma narrativa que está muito próxima do thriller sem deixar de ser investigação histórica. Para isso, o livro apoia-se em ficheiros secretos, entretanto desclassificados, documentos, cartas, memórias e outros materiais, procurando também separar os factos das histórias que o próprio Chapman gostava de contar sobre si.

E com base nisso que o autor revela o talento de narrar uma história, também com “H” maiúsculo, que mistura suspense, humor, perigo, romance e episódios quase absurdos, mas também dedica atenção ao contexto e às personagens secundárias. Ou seja, transforma uma biografia de espionagem numa narrativa envolvente de ritmos próprios.

E em vez de transformar Chapman num herói convencional, Macintyre mantém a dúvida sobre as suas verdadeiras lealdades, revelando um homem que arriscou repetidamente a vida e prestou serviços importantes aos britânicos, mas cuja personalidade oportunista e instável nunca desapareceu.

Talvez seja essa a maior força e veracidade de Agente Zigzag, pois, mais do que descobrir de que lado estava Eddie Chapman, o leitor acaba a perguntar-se se ele próprio saberia responder, uma vez que o espião sempre permaneceu numa zona cinzenta que Macintyre não tenta simplificar.

E ainda bem. Porque a verdadeira aventura deste livro não está apenas nas missões secretas. Está em tentar perceber quem era, afinal, o homem que passou a vida a convencer os outros de que era outra pessoa.



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