mariareisvaiapraia_20251227_beatriz_pequeno_320

Super Ballet: Maria Reis + Vaiapraia + Duo Vilar Seco @ ZDB (27.12.2025)

Com o coração e a cabeça do lado certo

Para fechar o ano de forma perfeita, um alinhamento de sonho onde ninguém veio ao engano. Disso não há dúvidas, ou não estivessem os bilhetes esgotados quase desde a data do anúncio.

Num ano em que Maria Reis não só prosseguiu a sua consagração como cancioneira de uma nova geração em solo nacional, como aproveitou a embalagem conseguida junto de Panda Bear para se dar a conhecer em novos palcos, terminar o ano com um concerto no Aquário, perante o seu público é mel.

Às 22h15 «Estagnação» irrompe cantada em coro. Segue-se «Insensível» do EP “Maria”. Respira-se uma atmosfera punk; pela rebeldia, pelo mínimo de adornos. Sempre no ponto.

Visitamos “Benefício da Dúvida”, título que com o passar dos anos soa cada vez mais irónico. A escolha recai em «Lobisomem», a faixa de abertura. Mais um hino… “Má fortuna, Erros Meus / Má fortuna, Erros Meus”. As canções respiram por si e nem o frio e a chuva que se fazem sentir no exterior fazem a temperatura do Aquário baixar. «Desaparece» surge num registo diferente mas pujante no que a personalidade diz respeito. Por aqui há muitos bons conselhos e “Dеsperdiçaste tantas horas /  Na mesma pеssoa / Tranquiliza pensa só em quem queres ser” é um deles.

«Metadata» é complexa, ou não possa o prefixo “meta” ter, tantos e profundos significados. Aqui optamos por simplificar. Fechamos os olhos, abanamos a cabeça e catamos cada verso mesmo que “Sorrir o tempo inteiro não consigo prometer”. A «Elefante na Sala» encerra em si todo um peso, forte e incisiva nas palavras.

A grande surpresa teve lugar num encore, com a irmã Júlia Reis a juntar-se a Maria na bateria para todos cantarmos a plenos pulmões “Tenho uma afta na boca / E não sei de onde veio”. Como se não bastasse Rodrigo Vaiapraia juntou-se para «Savanna 74» em formato trio. Não havia coração que aguentasse. “Se fizeres a cama agora já não vai contar / O meu pai comprou três folhados de carne p’ro nosso jantar”. Ao lado alguém dizia: “São só bangers!”. Verdade. E ainda faltava Vaiapraia.

Rodrigo, Chica, Beatriz Diniz e Ana Farinha, mais conhecida como Candy Diaz, são os Vaiapraia. E é assim que faz sentido percepcioná-los. Com “Alegria Terminal” como pretexto principal, a intensidade foi máxima do primeiro ao último segundo. «Way Way» e «Sing Along» deram o mote: mais bangers! “Eu só quero sing along / Sing along, sing along / Cantar contigo”. Foi muito isto. Isto e a canção ao som da  qual o Tiago Guillul faz exercício. Cantou-se «Disca-me Afectos» do “100% Carisma”, numa demonstração pujante da presença ímpar de Rodrigo em palco.

«Corta-Unhas» é a rejeição colocada de forma simplificada. “Rejeição, a liberdade de alguém tomar uma decisão /  Rejeição, é só um não, é só um não / A rejeição (é só um não) / A liberdade de alguém tomar uma decisão (é só um não)”. Outro bom conselho. Tenham-no presente. «Ar Com Ar» é um exercício aparentemente básico, mas não menos brilhante com palavras, que deambulando ora entre o português, ora entre o inglês, e com suspiros deliciosos pelo meio. «Kolmi» soa (e é) “anthemica”.

Segue-se «Real», e depois novo momento inolvidável, porque «Ulucrudador» foi a canção que se seguiu. “Quero ser um porquinho mealheiro / Faz-me um furo nos cornos e põe lá o dinheiro”. «Juro» e «Tupperware Furado» foram dois momentos solenes; canções que marcam. Pelas palavras, pela entrega de quem canta, mas também pela entrega de quem está a ouvir, a ver e a gritar.

Perdemos a noção do tempo. As canções sucedem-se, mas tudo tem um fim e aqui anuncia-se ao som de «Eu Quero Eu Vou» e de «É Que À Noite». Épico e impossível de escolher o que foi melhor, mas com a certeza que todos ali estavam com o coração e a cabeça do lado certo.

A fechar a noite esteve o Duo Vilar Seco que ofereceu aos resistentes a sua seleção sonora.

Fotografia por: Beatriz Pequeno / Cortesia da ZDB.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This