Sensible Soccers @ B.Leza (15.10.2026)
Música que se torna sensorial. E nestes momentos tudo se torna mais puro, quiçá cru. A batida. A frequência da batida.
Sempre pensei nos Sensible Soccers como elegantes e com uma sensibilidade muito própria sobre a música que compõem. Capazes de se reinventarem, álbum após álbum, sem nunca perderem a sua matriz identitária.
Porém, antes de chegarmos aqui, os Sensible Soccers surpreenderam-nos com o anúncio do regresso às edições, após um período longo em que se mantiveram também arredados dos palcos (o que aconteceu no último Primavera Sound), com dois EPs de remisturas dos novos temas ainda por conhecer, que viriam a integrar este álbum, da autoria de nomes incontornáveis como Mad Professor ou Danilo Plessow, numa forma no mínimo original para nos aguçar o apetite.
Ao quinto álbum, que tem o apelativo título de “Camminando di Notte”, a banda de André Simão, Hugo Gomes, Manuel Justo e Sérgio Freitas (e João Nuno Vilaça ao vivo) continua o seu périplo de exploração e combinação cirúrgica de elementos electrónicos com outros menos, sempre a expandir as suas fronteiras sonoras para nosso gáudio.
Começamos com «Chuva Morna». Neste álbum, a forma como se progride, canção após canção, conta. Sabem aquela sensação de acordar com o sol a bater na cara suavemente? É exactamente assim que nos sentimos neste momento.
Os Sensible Soccers seriam exímios na criação de bandas sonoras para aquelas séries da HBO que nos tiram do sério, de tão boas que são. A neblina que os envolve sobre o palco, deliberadamente auxiliada de forma assertiva pela luz, confere-lhes um toque etéreo que é quase palpável e que tão bem complementa o som que flui do palco. Olhamos em volta e parecemos todos submersos num transe, que ora acelera, ora abranda, mantendo sempre os batimentos cardíacos devida e saudavelmente num sincronismo anacrónico.
Composição após composição, vamos sentindo-nos mais ricos, pela diversidade sonora que vem sendo explanada diante de nós, mas também pelo que nos leva a viajar sem sair do mesmo lugar. Sempre, sempre com uma execução sublime, com tudo no momento certo.
Continuamos a caminhar. Juntos. Lado a lado. Vamos interiorizando os novos temas como «Rosa Mota», «Berlaitada» ou «Saravá». Desde já faço a ressalva de que a ordem aqui apresentada é apenas a que a memória e a cabeça permitem, e também de que as palavras aqui utilizadas para descrever o que se foi desenrolando ficarão sempre aquém quando comparadas com o som prístino e cristalino. Perfeito.
O futuro constrói-se sobre o passado e o presente, por isso celebrá-lo é incontornável. No fundo, são os momentos em que escutamos aquelas canções essenciais, os bangers – como «Ulrike» ou «Elias Katana» – executados com aquela contenção que os Sensible Soccers parece que foram talhados para ter. Imaginem veludo. Imaginem agora a ponta do vosso dedo percorrendo as riscas verticais. De cima para baixo. Suave. Até que o deixam de ser. E depois voltam a sê-lo. É isto. Música que se torna sensorial. E nestes momentos tudo se torna mais puro, quiçá cru. A batida. A frequência da batida. E isso reflecte-se de uma forma contagiante nos corpos aqui presentes. Um tropicalismo electrónico.
Há vezes, e cada vez mais são poucas, em que a palavra está verdadeiramente sobrevalorizada, e estes cerca de 70 minutos do nosso tempo de vida foram uma dessas ocasiões.
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