“Os Irmãos Burgess” de Elizabeth Strout
Família, culpa e silêncios
Durante as entrevistas que Elizabeth Strout deu a propósito de Conta-me tudo, derradeiro tomo da saga Lucy Barton – uma das personagens mais carismáticas da literatura contemporânea –, a autora nascida em Portland, EUA, surpreendia ao afirmar que o próximo livro deixaria de fora a personagem, também ela escritora, que cresceu na pobreza extrema no Illinois.
Qual seria então o caminho a seguir? A resposta surge com Os irmãos Burguess (Alfaguara, 2026), uma quase natural bifurcação do universo de Strout, trazendo a palco algumas figuras de segundo (ou terceiro) plano dos seus livros anteriores, mantendo como palco Shirley Falls, cidade fictícia no coração do Maine.
Falamos de um livro de contemplação e que se lê, e compreende, nas entrelinhas, nos silêncios, nas tensões que nunca chegam a explodir por completo. Tudo começa com um gesto tão estranho quanto perturbador: Zach, adolescente e filho de Susan, irmã de Jim e Bob, atira a cabeça de um porco para dentro de uma mesquita.
Esse episódio, que poderia dominar toda a narrativa, é aqui apenas um gatilho, pois, o que realmente importa vem depois, no caso o regresso de uma família às próprias falhas e passado.
Os irmãos Burgess – Jim, Bob e Susan, os dois últimos, gémeos – são chamados de volta ao lugar onde cresceram e, de certa forma, nunca deixaram verdadeiramente, com Susan ainda manter por lá residência, e o incidente que envolve Zach dá rapidamente a perceber que o problema é maior do que isso. Muito maior. Há um passado mal resolvido, um acidente de infância que marcou tudo o que seguir, e que nunca foi totalmente compreendido, ou assumido.
Strout constrói a narrativa enquanto retira camadas, sem linhas retas ou uma verdade única. Cada personagem oferece a sua versão, o seu ângulo, a sua forma de lidar com o que aconteceu. E, nesse processo, torna-se evidente que o que une esta família não é apenas o sangue, mas também aquilo que escolheram, ou foram obrigados a esconder.

Jim, o irmão mais velho, é o mais “visível”. É um advogado de sucesso em Nova Iorque, graças ao seu mítico desempenho no caso O.J. Simpson, seguro, carismático, habituado a controlar tudo à sua volta. Mas essa segurança tem fissuras, e o livro vai mostrando, com alguma crueldade, até que ponto ela é construída, com o enfoque também na vida de casal que partilha há décadas com Helen.
Bob, que conhecemos por ser o confidente de Lucy Barton noutros livros, por outro lado, vive numa espécie de sombra. Também advogado, mas sem o brilho do irmão, carrega um peso silencioso que nunca o abandonou. Há nele uma culpa antiga, persistente, que molda cada decisão, cada relação, cada recuo. Essa culpa é a morte do pai.
E depois há Susan, talvez a mais discreta, e, ao mesmo tempo, a mais reveladora. Ficou em Shirley Falls, numa vida aparentemente pequena, marcada por um divórcio, inseguranças e uma relação difícil com o filho. É ela quem chama os irmãos, mas é também quem mais expõe as fragilidades de todos.
À medida que se aproximam, percebemos que não há reconciliações fáceis. Há desconforto, ressentimento, momentos de aproximação que parecem sempre prestes a falhar. Apesar disso, Strout rejeita estoicamente o dramatismo fácil, preferindo trabalhar no detalhe, através de frases parecidas fora do contexto, silêncios prolongados, gestos que chegam tarde demais.
O contexto social – a presença de uma comunidade imigrante, somali, as tensões culturais, o peso do preconceito – está lá, marca a atualidade, mas nunca domina completamente a narrativa. Funciona como pano de fundo, ampliando o que já existe dentro das personagens. Porque, no fundo, não temos em mãos uma obra sobre um incidente isolado, mas o que vem antes dele.
A escrita, deliciosamente mundana e típica de Strout ousa transformar o quotidiano em momentos que ficam na memória, acompanhando esse tom. Contida, precisa, quase discreta. Não há excessos, nem grandes (e)feitos, mas uma atenção constante ao detalhe emocional, à forma como as pessoas pensam, hesitam, se protegem. Strout escreve como quem observa de perto, sem interferir demasiado, e essa capacidade confere a toda a narrativa uma autenticidade inata.
O final fica (ou não) em aberto, mas também não precisamos de respostas claras. O que queremos é abraçar uma sensação persistente, comovente, em que as famílias são (des)feitas tanto pelo que se partilha como do que se esconde. É que, por vezes, o mais difícil não é enfrentar o passado, é aceitar que talvez nunca o compreendamos por completo. Será que haverá um próximo livro de Strout para o provar? Sinceramente, esperemos, cremos, que sim.
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