OIG2 (4)

Ler é o melhor remédio

Do estudo genético ao mito existencialista

O Que os Genes Dizem Sobre Mim
de Marta Zegre Amorim

Contraponto Editores (contrapontoeditores.pt)

O que herdámos dos nossos pais? Até que ponto os genes influenciam a nossa saúde, a nossa personalidade ou o nosso futuro? Estas são algumas perguntas que estão na génese de O Que os Genes Dizem Sobre Mim, da autoria da médica e especialista em Genética Médica Marta Zegre Amorim, formada na FMUL, e que procura responder a algumas das dúvidas mais fascinantes, e frequentes, que hoje se coloca à Ciência.

E num tempo em que os testes genéticos são cada vez mais acessíveis e a medicina personalizada começa a transformar a prática clínica, a autora apresenta um livro de divulgação científica que combina rigor, experiência clínica e uma notável capacidade de comunicação. O resultado é uma obra acessível, mas nunca simplista, que ajuda a compreender o que os genes podem (ou não) revelar sobre cada um de nós.

Ao longo de oito capítulos, que incluem vários casos reais, e acrescentando-se um breve dicionário de «genetiquês-português» nas páginas finais, Marta Zegre Amorim aborda temas como a predisposição genética para determinadas doenças, a fertilidade, o envelhecimento, a saúde mental ou a hereditariedade, não esquecendo de apontar a Genética ao futuro. Fá-lo a partir do conhecimento científico mais recente, mas também da experiência adquirida enquanto médica geneticista, trazendo para o texto as dúvidas, receios e expectativas que habitualmente acompanham quem procura respostas no próprio ADN.

Com uma linguagem acessível e assertiva, este livro permite a desconstrução do determinismo genético, pois, ao contrário da perceção ainda dominante no imaginário coletivo, sublinha-se que os genes não funcionam como uma sentença inevitável. A investigação desenvolvida nas últimas décadas, nomeadamente nas áreas da epigenética e da medicina personalizada, tem demonstrado que a relação entre hereditariedade, ambiente e estilo de vida é muito mais complexa e dinâmica do que anteriormente se pensava.

Nesse sentido, O Que os Genes Dizem Sobre Mim, que contou com o apoio da Germano de Sousa, aproxima-se de uma tendência de divulgação científica que procura tornar a Genética acessível ao grande público, à semelhança do trabalho desenvolvido por autores como Siddhartha Mukherjee ou Adam Rutherford. No entanto, a perspetiva clínica e humana de Zegre Amorim confere à obra uma dimensão particularmente relevante, ao recordar que conhecer o nosso património genético implica também refletir sobre identidade, liberdade e responsabilidade.

Tome nota
«A genética está a revolucionar a forma como fazemos medicina, permitindo diagnósticos mais rápidos, preditivos, pré-sintomáticos, com impacto na prevenção, acompanhamento e tratamento das doenças.»

 

O Símio Arrogante
de Christine Webb

Temas e Debates (temasedebates.pt)

Durante demasiado tempo, habituámo-nos a olhar para a história da vida na Terra como uma narrativa cujo protagonista é o ser humano. Mas, em O Símio Arrogante, Christine Webb desafia essa perspetiva e convida a abandonar a ideia confortável de excecionalidade humana por via de um ensaio de quase 400 páginas que cruza biologia evolutiva, comportamento animal e reflexão ética para colocar uma questão desconfortável: e se nunca tivéssemos sido tão especiais quanto gostamos de acreditar?

Christine Webb é professora na área dos Estudos Ambientais da Universidade de Nova Iorque e desenvolveu grande parte do seu percurso científico no Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard, dedicando-se ao estudo do comportamento, das emoções e da cognição em primatas não humanos. O seu trabalho cruza a primatologia, a ética animal e as ciências sociais, procurando compreender de que forma as nossas ideias sobre os outros animais moldam também como pensamos sobre nós próprios.

Ao longo de um exercício simples e desconfortável, este livro recupera uma visão mais próxima daquela que Darwin defendia (a de que os seres humanos fazem parte da teia da vida e não constituem o seu ponto culminante), com Webb a questionar a ideia de que somos a espécie mais inteligente, mais virtuosa ou mais sofisticada que alguma vez existiu.

Para sustentar esta reflexão, convoca décadas de investigação sobre cognição e comportamento animal, mas também episódios da sua própria experiência de campo. Das culturas dos chimpanzés às formas de comunicação das aves e dos cães-da-pradaria, passando pela complexidade comportamental dos peixes ou pelas capacidades adaptativas de plantas e fungos, Webb constrói um argumento sólido contra aquilo que designa como “excecionalismo humano”.

Mas o que distingue este livro de outras obras que exploram a mesma temática é o facto de esta discussão nunca permanecer apenas no plano da zoologia ou da filosofia, pois para Webb a convicção de que a humanidade se encontra acima das restantes formas de vida teve consequências profundas na forma como exploramos os recursos naturais, tratamos outras espécies e organizamos as nossas sociedades. A crise climática, a destruição da biodiversidade ou mesmo algumas crises sanitárias globais não podem ser dissociadas desta visão antropocêntrica do mundo.

Apesar da contundência do diagnóstico, O Símio Arrogante está longe de ser um manifesto pessimista, com a autora a transformar o seu cogito num exercício de humildade intelectual e emocional, defendendo que abandonar a ideia de superioridade humana pode abrir caminho a uma relação mais equilibrada com o planeta e com as restantes espécies que o habitam e, logo, abraçando uma abordagem honesta de compreender aquilo que significa ser humano.

Tome nota
«As críticas ao existencialismo humano têm tendência para se centrar na nossa obrigação moral para com as outras espécies. O que não veem é que a humanidade também tem a ganhar desmontando as suas ilusões de singularidade e superioridade, e não só por essas ilusões se encontrarem na origem da crise ambiental, mas também porque nos impedem de interagir com o mundo de uma forma que instile constantemente um sentimento de profundo respeito, admiração e humildade.»



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