OIG2 (4)

Ler é o melhor remédio

Do envelhecimento ao mindfulness empresarial

Porque morremos
de Venki Ramakeishnan
Temas e Debates (temasedebates.pt)

Nobel da Química em 2009 pela sua investigação sobre a estrutura do ribossoma, o indiano Venki Ramakrishnan regressa às edições com um livro que se debruça sobre a finitude da vida, mas mais propriamente sobre a uma nova ciência do envelhecimento e a procura da imortalidade, e onde o cientista conduz o leitor por um território onde a biologia molecular, a reflexão ética e a experiência humana se cruzam de forma esclarecedora.

O ponto de partida é claro: envelhecemos e morremos porque o corpo acumula danos que não consegue reparar. Mas, a partir dessa constatação, Ramakrishnan constrói uma obra que tem a ousadia de além da explicação científica, com o autor a desmontar mitos em torno da indústria do antienvelhecimento, a analisar as promessas – muitas vezes exageradas – de terapias que vendem juventude eterna e a questionar o preço, não apenas financeiro, mas também ético e social, de tentar prolongar indefinidamente a vida.

Ao longo dos 12 capítulos de Porque Morremos percebemos a intenção de se partilhar um equilíbrio entre esperança e ceticismo, com Ramakrishnan a explicar de forma clara alguns avanços concretos, e com base em estudos científicos, sejam terapias celulares ou restrições dietéticas que mostram resultados no prolongamento da saúde, mas evitando alimentar fantasias de imortalidade. A escrita, maioritariamente acessível, ainda que, por vezes, densa e técnica, aproxima-nos do que a ciência sabe e, sobretudo, do que ainda não sabe.

Além disso, há também uma dimensão filosófica e política que eleva o livro, explorando-se questões como: É possível estender radicalmente a vida humana, o que aconteceria às próximas gerações?; Como gerir desigualdades no acesso a tratamentos de ponta?; Que impacto teria uma sociedade composta por pessoas que vivem muito mais tempo do que hoje?

Num mundo em que o envelhecimento populacional se tornou um dos maiores desafios sociais e de saúde pública, Porque Morremos é uma obra necessária. Não promete milagres, mas oferece conhecimento rigoroso e, acima de tudo, uma leitura lúcida sobre a nossa própria condição. Ramakrishnan mostra que compreender a morte é, afinal, uma forma de dar mais valor à vida e o desafio não é viver para sempre, mas viver melhor e com mais consciência do tempo disponível.

Tome nota
«A atual revolução em biologia, que teve início há mais de um século com a descoberta dos genes, levou-nos a uma encruzilhada. Pela primeira vez, a pesquisa recente em torno das causas fundamentais do envelhecimento abre a perspetiva não só de melhorar a nossa saúde, como também de prolongar o tempo de vida humano.»

Trabalhar como um monge
de Shoukei Matsumoto
Pergaminho (pergaminho.pt)

Proposta de reflexão sobre como encaramos o trabalho e como este se cruza com a nossa vida pessoal e espiritual, este breve livro (140 páginas…), assinado por Shoukei Matsumoto, monge budista no templo Komyo-ji, Tóquio, e com formação em Estudos Religiosos e em gestão, conjuga duas experiências aparentemente distantes – a contemplação e o mundo corporativo –  tendo como propósito sugerir a possibilidade de introduzir princípios budistas como simplicidade, mindfulness e cooperação nas empresas modernas.

Numa linguagem clara e direta e com base num diálogo ficcional entre um empresário e um monge budista, o autor apresenta estratégias concretas que vão desde a escuta consciente à aceitação da imperfeição, procurando mostrar que pequenas mudanças podem trazer grandes resultados. Paralelamente, o livro faz um apelo à sustentabilidade humana e social, rejeitando a ideia de empresas focadas apenas na produtividade e resultados imediatos, pois Matsumoto propõe organizações que sejam também espaços de crescimento, equilíbrio e bem-estar, onde trabalhar com propósito se torna possível.

E ainda que algumas das propostas do “monge do MBA” possam parecer difíceis de concretizar em contextos empresariais altamente competitivos e hierarquizados, onde há pouca margem para transformações culturais profundas, a busca pela idealização de empresas com o perfil de “mosteiros modernos”, revela-se uma bonita utopia.

Apesar desse lado vincadamente mais “sonhador”, Trabalhar como um monge cumpre um papel relevante num tempo em que burnout e insatisfação profissional são cada vez mais frequentes. E ao propor que o trabalho seja visto como espaço de sentido, presença e compaixão, Matsumoto oferece uma alternativa transformadora e convida a repensar os modelos dominantes e a redescobrir propósito no quotidiano profissional.

Tome nota
«Acredito que o papel de um monge é semelhante ao de um tradutor. Não apenas o da tradução entre as línguas (…), mas também o de interpretar as palavras de Buda nos tempos modernos, criando uma ponte entre os ensinamentos budistas e a linguagem dos negócios.»



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