Ler é o melhor remédio
Da desaceleração física e emocional à história do medicamento

O Método Slow
de Lee Holden
Nascente (penguinlivros.pt)
Numa sociedade que implica a resposta a solicitações constantes e onde tudo parece feito para acontecer rápido, Lee Holden, especialista em práticas de saúde oriental e mestre de Qigong (disciplina que nasceu com base na medicina, filosofia e artes marciais chinesas e combina movimentos suaves, boa postura e respiração), propõe exatamente o contrário: abrandar.
Como? Através de uma filosofia que criou e a qual batizou de Método Slow, uma abordagem que conjuga meditação, movimento consciente e respiração, cuja mais-valia é não apenas proporcionar mais bem-estar, mas sim uma nova forma de estar no mundo. Convidado a experimentá-lo está quem quer escapar ao cansaço crónico, ao stress constante e à sensação de estar sempre “em falta” com algo.
Holden explica através deste livro como atingir essa espécie de nirvana, cuja estrutura assemelha-se a um guia prático de transformação, em que o primeiro passo é a identificação dos sintomas de uma vida acelerada (por exemplo, ansiedade, insónia, baixa produtividade, entre outros), sugerindo, após isso, um plano simples, mas consistente, para recuperar o equilíbrio. O segredo, defende, está nos gestos suaves, nos exercícios de respiração e/ou na escuta atenta do corpo.
No entanto, o maior desafio proposto por Holden é a disciplina necessária para se adaptar ao Método Slow, que implica converter ensinamentos milenares à vida ocidental moderna, e isso obriga-nos a ter tempo, espaço e, sobretudo, autonomia sobre o quotidiano.
Mas, e felizmente, ao contrário de outros livros deste género, Holden não recorre a uma linguagem esotérica nem a soluções mágicas. O seu tom é empático, prático, muitas vezes até “clínico”. Esse perfil torna O Método Slow um bom ponto de partida para quem procura introduzir hábitos mais conscientes, mesmo que isso exija um período de adaptação mais demorado e ocupando pouco tempo no seu dia a dia. Exemplos disso são realizar um exercício de cinco minutos ao acordar, apostar numa verdadeira pausa ao almoço ou efetuar um singelo gesto de gratidão antes de dormir, ações em que a sua simplicidade contribui em muito para revolucionar como encarar a vida.
Tome nota
«Tudo por ser meditação, desde que seja feito com toda a sua consciência. O leitor é o mestre da sua mente. Traga para a sua consciência algo que apreciou no seu dia ou na sua semana. Pense em algo que está ansioso no futuro. Pôs a sua mente em movimentação. Isso é meditação.»

A mulher do boticário
de Karen Bloom Gevirtz
Temas e Debates (temasedebates.pt)
Ainda que o título remeta para um teor que derive em curiosidades históricas, o que a multifacetada Karen Bloom Gevirtz, licenciada em Inglês na Universidade de Brown, Inglaterra, detentora de formação em Estudos Introdutórios à Medicina e assistente num laboratório de neuroquímica, propõe com este livro é uma desconstrução meticulosa dos bastidores da ciência moderna, e, simultaneamente, uma viagem pelas margens da história, onde as mulheres eram mais do que figurantes, mas raramente reconhecidas como protagonistas.
Por via desse olhar crítico, nascido de uma investigação rigorosa, Gevirtz transporta-nos até à Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, período em que a medicina dava os primeiros passos rumo à modernidade, mas ainda estava muito dependente e associada à alquimia, assim como à experimentação doméstica e farmacologia popular. E, nesse sentido, o “boticário” representa a figura masculina que ocupa o centro do saber científico, mas é a mulher – a esposa, assistente ou herdeira invisível – quem manipula substâncias, cuida dos corpos, observa e aprende.
Escrito com um estilo académico, mas com uma linguagem acessível a leigos, A Mulher do Boticário pede uma leitura calma, já que faz uma contextualização histórica em alguns momentos densa. No entanto, a sua leitura recompensa o tempo dedicado, enquanto Gevirtz recupera vidas “apagadas”, dá-lhes contorno e voz, ao mesmo tempo que convida a repensar o cânone da ciência como uma construção que sempre foi partilhada, ainda que nem sempre reconhecida como tal.
Para isso, a autora parte de exemplos concretos e documentos raros (as páginas centrais oferecem imagens de páginas de livros de receitas, retratos de família, ilustrações, gravuras e outros) para revelar como estas mulheres, muitas vezes sem acesso formal à educação, foram essenciais na construção do conhecimento médico e químico.
Mas o verdadeiro mérito deste livro está no seu cariz factual e como Gevirtz não romantiza o papel feminino nem faz revisionismos simplistas, sendo um objeto que escreve com precisão, apoiado em fontes sólidas e análises interdisciplinares (a bibliografia apresentada no final do livro tem 50 páginas…), cruzando vários momentos da ciência, a história oculta do medicamente e como se tornou uma mercadoria, o que torna o livro particularmente valioso para leitores interessados em compreender a intersecção entre saber, género e poder, sobretudo num tempo em que, infelizmente, a discussão sobre a “invisibilização” feminina no conhecimento continua atual.
Tome nota
«A Mulher do Boticário disponibiliza informações e conhecimento sobre o que aconteceu no passado, e como e por que razão aconteceu, para que os leitores possam compreender melhor o presente. O livro é meu, a história é partilhada e as escolhas são vossas.»
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