“Lucy” de Jamaica Kincaid
Mulher nome de diabo
Numa altura em que a maioria das edições de livros ganharam uma universalidade quase global, ainda que em alguns casos a chegada aos escaparates diste semanas ou meses, continuamos, durante décadas, privados de algumas obras. Até que, felizmente, alguém acredita que determinado livro tem agora lugar num qualquer mercado nacional, e somos premiados com surpresas há muito adiadas.
Um desses casos é a publicação recente de Lucy pela Alfaguara, o segundo romance de Jamaica Kincaid, pseudónimo de Elaine Potter Richardson, natural da ilha caribenha de Antígua e Barbuda, originalmente lançado em 1990. Falamos de um livro com uma elevadíssima carga autobiográfica, que, apesar da sua brevidade (tem pouco mais de 170 páginas), é um exercício visceral sobre o (auto)exílio, a busca por uma identidade e a insubmissão feminina.
A figura central da narrativa, Lucy Josephine Potter (não, não é coincidência…), promete entrar para uma ilustre galeria de personagens femininas da literatura contemporânea que tanto apaixonam como colocam o leitor numa posição desconfortável, tal a sua honestidade, clarividência e perfil integro, no qual não há lugar para a mentira.
A Lucy de Kincaid é uma rapariga de 19 anos que «detesta domingos» e decide abandonar a sua terra natal, nas Antilhas, um paraíso para qualquer turista, para tentar a sua sorte num lugar ao qual já chamaram Novo Mundo, tudo para se libertar do amor sufocante, castrador, da sua mãe, assim como do cruel desprezo do pai.
Nessa tentativa desesperada de ganhar uma distância saudável da família e começar uma nova vida, Lucy chega a Manhattan para trabalhar enquanto au pair na casa de uma família de classe média, sublinhada com tiques burgueses, enquanto, paralelamente, estuda enfermagem. Essa família, aparentemente perfeita, é composta por Lewis e Mariah, uma espécie de casal modelo que mistura glamour, beleza e felicidade, e as suas quatro filhas: Loiusa, May, Jane e Miriam.

No entanto, esse quadro de felicidade plena não é mais do que uma fachada que Lucy vai descobrindo enquanto luta para se habituar a ritmos e ritos que nunca tinha experimentado, constatando que a infelicidade, a traição e a solidão podem estar em todo o lado, seja em Nova Iorque como em Antígua.
E o que parece, à superfície, uma história sobre crescimento e oportunidade, revela-se, rapidamente, uma jornada de desenraizamento profundo, não fosse Lucy negra e emigrante, ainda que os laços que vai construindo, a medo, com Mariah possam valer-lhe momentos de alguma sensação de integração, pertença, apesar de nunca perder a desconfiança, muito por culpa das atitudes de Lewis que viu na jovem caribenha apenas uma «visita, uma pobre visita».
Movendo-se entre a rigidez dos laços familiares (os seus, que quis abandonar na ilha; e os que encontrou na família nova-iorquina) e o descompasso cultural da nova realidade, Lucy vai tentando libertar-se, ainda que o objetivo não seja tanto a integração, mas ser, finalmente, ela própria, encontrar-se.
Para forçar esse fim, decide esquecer a relação com os seus pais, inclusivamente recusando responder às cartas enviadas pela mãe, querendo libertar-se de um amor que aprisiona, sufoca emocionalmente, um sentimento de constante opressão afetiva, mascarada de preocupação e cuidado. Essas sensações passam das páginas para o entendimento do leitor graças a uma escrita assertiva, poética, ainda que, por vezes, intencionalmente “fria”, seja mediante frases curtas, repetições sonoras ou imagens sensoriais (principalmente, quando Lucy está na casa de campo com Mariah).
Kincaid apresenta o livro como se fosse um diário, um visceral monólogo interior que oscila com o humor de Lucy, proporcionado passagens serenas que dão lugar a momentos de verdadeira fúria, sem uma estrutura que se assemelhe a capítulos, mas antes pedaços de vida, de memórias antigas e novas que podem ser de felicidade ou dor. Essa fragmentação literária encontra-se em várias passagens, sejam as experiências sexuais de Lucy, as suas amizades (Peggy é o caso mais paradigmático) mais ou menos inesperadas e/ou mais ou menos coloridas, a relação com a sua “patroa”, que ousa crescer até a uma quase posição de amizade, a paixão pela fotografia, a sensação de não pertença, os julgamentos silenciosos, os episódios crus e a noção da protagonista de que as relações podem ser forjadas, falsas, de conveniência. E, na sua ingenuidade, chega a perguntar-se: «como nos tornamos pessoas assim?».
Nada em Lucy, livro e protagonista, tem a ambição de almejar consolo ou redenção, algo que é coerente tendo em conta um personagem que rejeita afetos, rompe laços, questiona tudo, inclusive a si mesma. Mas é justamente essa capacidade e coragem de não suavizar a realidade, de ignorar “paninhos quentes”, que torna este livro mais humano, mesmo que essa humanidade seja fruto da autoimposição da solidão, do preferir estar só, afastando-se do “fantasma” da sua mãe e das semelhanças que vai observando entre ambas. Isso acontece porque Lucy, como tantas outras mulheres, decide manter-se à margem, do lado de fora, diabolizada, temendo sofrer, sofrendo, mesmo que possa encontrar pontos de afinidade com o “outro”, pois, a sua condição ensinou-a que há fronteiras emocionais que não se cruzam, já que, até quando se chora pelos mesmos motivos, as lágrimas têm sabores diferentes.
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