“Conta-me tudo” de Elizabeth Strout
História(s) simple(s)
A literatura pode ser vários lugares, territórios narrativos que misturam sentimentos, épocas, estados de alma, cores, dores, mas, acima de tudo, pessoas. Para que tudo resulte “bem”, para se conseguir um bom livro, exige-se a quem o escreve que consiga passar ao leitor todos esses condimentos que transformam um conjunto de ideias, gentes e lugares em algo “real”, que, de uma forma coerente e empática, crie um mundo que se descobre a cada página e cujo recheio seja uma história com gente que fica na nossa memória, coração e História.
Fazer (tudo) isso através da simplicidade é um feito de alguns autores, escritores, sendo a norte-americana Elizabeth Strout, vencedora do Prémio Pulitzer, um dos seus expoentes, tendo a sua obra o condão de transformar o banal, o quotidiano, aquilo que acontece a todos nós sem exceção, em acontecimentos que marcam, pois sentimos que é um pouco de cada um de nós que a criadora de personagens icónicas como Lucy Barton ou Olive Kitteridge revela e partilha nos seus extraordinários romances.
Para isso funcione, criou um mundo sinónimo de uma pequena vila no Maine, de seu nome Crosby, que é também palco de Conta-me tudo (Alfaguara, 2025), livro em que dizemos adeus a algumas das personagens mais marcantes deste século, e no qual Strout tenta “resolver” a vida das pessoas que habitam as suas obras, encontrando um caminho que as mantenha vivas no papel e na nossa memória. E ainda que isso pareça um pouco “forçado” nas últimas páginas deste livro, aceitemos como uma espécie de final “feliz”.

Numa das encruzilhadas desse caminho, encontramos Barton e Kitteridge, verdadeiros ícones nascidos da literatura de Strout, que finalmente se conhecem e aproveitam para partilhar pequenos momentos, memórias, das suas vidas que têm o mérito de edificar uma afinidade inesperada entre as duas, elevando acontecimentos comuns ao estatuto de reflexões sobre a existência.
Mas este livro é também espaço para conhecer melhor Bob Burgess, outro dos personagens habituais no mundo de Elizabeth Strout, que se vê arrastado para um turbilhão de sentimentos, seja isso abraçar o seu papel de advogado na defesa de um conterrâneo acusado de matar a mãe, tentar perceber o que sente por Lucy, sua companheira de passeios à beira-mar e confidências, como enfrentar (e salvar) o seu casamento com Margaret ou reviver o passado e abraçar o presente na companhia de Jim, o seu irmão, que perdeu Helen, sua esposa, numa batalha contra a doença.
Arriscamos dizer que Bob é mesmo a figura central deste romance, tal a força como está emocionalmente exposto em Conta-me tudo, mas, sobretudo, como luta contra aquilo que sente por Lucy, essa tempestade avassaladora que o corrói e o leva para um lugar onde a escuridão da solidão parece ofuscar qualquer raio de sol, e os fantasmas do matrimónio, e o natural desgaste de uma longa relação, teimam em dançar à sua frente de forma provocatória.
No entanto, apesar de tanta mágoa, dor e solidão, Bob dá-nos uma lição de sobrevivência e resiliência, mesmo que isso o mate por dentro, resgatando de si a força para continuar a ser ele próprio, o velho que depois de um precipitado corte de cabelo parece um miúdo gordo, a pessoa solidária e socialmente envolvida ou no papel de ex-marido de Pam, uma mulher à beira de um ataque de nervos que se refugia no álcool.
Tal como tão bem diz Lucy, Bob é um «devorador de pecados», tal como ela própria, assim como Olive, gente simples que luta contra a força do passar dos anos, do envelhecer, e da noção que há pouco tempo que resta. Mas, nesse pouco tempo que falta, é urgente ser feliz, salvar a alma, afugentar fantasmas do passado e agarrar-se ao mundo, ligar-se a ele.
Talvez, talvez, a melhor forma de fazer essa fuga para a frente é, tal como diz tantas vezes Lucy Barton a Bob Burgess nas suas caminhadas, «não penses nisso…», seja isso a mágoa, a tristeza, a certeza de um final mais ou menos simpático ou justo.
Todos temos a nossa parte de “pessoa desfeita”, de alguém que procura um futuro, e se essa luz ao fundo do túnel resulta da leitura de livros como este, então que assim seja. Que assumamos aquilo que nos comove, que enalteçamos o que nos emociona, que abracemos a nossa fragilidade, que nos entreguemos à amizade e amor que damos e recebemos, sejamos humanos e aproveitemos a vida como ela é: simples e incomparável, tal como a obra de Elizabeth Strout.
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