“Manteiga” de Asako Yuzuki
Umami agridoce com pitadas de sangue
É com base num caso real, que ficou conhecido como The Konkatsu Killer, que a autora japonesa Asako Yuzuki, vencedora do Prémio All Yomimono para novos escritores e o Prémio Yamamoto Shugoro, constrói um dos romances mais inquietantes da temporada e da literatura contemporânea nascida por terras do Oriente.
Falamos de Manteiga (Casa das Letras, 2025), romance que se apresenta como uma investigação criminal, mas rapidamente se revela uma viagem pelos meandros da psicologia, e em especial pelos bastidores da obsessão, da culpa e da fome – literal e metafórica – que atravessa o universo feminino.
No centro da trama está a figura de Manako Kajii, uma cozinheira gourmet que está detida no Centro de Detenção de Tóquio por, alegadamente, envenenar vários homens solitários e ricos que haviam sido seduzidos pelos seus dotes culinários. O caso tem um enorme eco no Japão, despertando o interesse da sociedade civil e da imprensa, mas a recusa de Kajii em dar entrevistas ou receber visitas tornou ainda mais difícil tentar entender o que se passou.
Essa áurea de mistério contribuiu em grande parte para aguçar a curiosidade, o apetite, da jornalista Rika Machida, a única mulher no seu gabinete de imprensa, que decide investigar o caso, tomando a iniciativa, também na esperança de conseguir um furo jornalístico e chegar à verdade, de escrever-lhe uma carta a pedir uma entrevista. Como trunfo para chegar até Kajii, Rika introduz o tema da culinária e de forma gradual vai conquistando a atenção da presumível culpada.
Nesse jogo de quase sedução por via gastronómica, onde a manteiga (ah, e nem se ouse em falar de margarina…) é uma das obsessões de Kajii, apesar de ser um produto cada vez mais raro, Rika vai deixando-se levar pelo prazer da comida que parece despertar-lhe emoções que nunca tinha sentido ou pensado que estivessem associadas ao ato de comer. Aliás, a manteiga é-nos servida como um símbolo de excesso e de prazer proibido na cultura japonesa, onde o ideal feminino se confunde com a contenção, tornando-se a metáfora central do romance.
Apesar de existirem outros personagens, como o casal amigo de Rika, o seu “namorado” ou os colegas de trabalho da jornalista, Yuzuki centra-se na dupla Rika-Kajii, e, através de um ritmo lento e descritivo, características muito associadas à literatura japonesa, cria uma linha narrativa sob a forma de uma peça demorada e suculenta, onde há espaço para se deliciar com, por exemplo, a lentidão perfumada de uma panela de leite ao lume, funcionando como uma desconstrução da própria ideia de verdade e de quem tem o direito de contá-la.

A par das muitas metáforas, Manteiga cruza os rituais da culinária com as regras tácitas da moral social, explorando a forma como o corpo feminino é “policiado”, criticado e, tantas vezes, condenado. Mas Yuzuki vai mais longe ao tecer uma crítica subtil, mas cortante, à cultura da magreza, à misoginia interiorizada e à espetacularização do crime quando é cometido por mulheres que fogem à norma. E, para isso, o livro mergulha de cabeça nos julgamentos sociais, e em especial na mulher gorda, solteira e amante do prazer (culinário e não só) que pode ser perigosa ou inocente.
Sem levantar muito o véu, ou, neste caso, a tampa da panela narrativa, há neste primeiro romance de Asako Tuzuki traduzido em português e inglês, ecos de policial e pinceladas de sangue, mas o que mais fascina não é tanto o crime, mas como se fala do ritual de cozinhar, do exercício de comer, e dos prazeres que disso se pode retirar.
Paralelamente, há a fome. Pela comida, claro, mas também pela justiça, pelo afeto, pela liberdade. Essa, por vezes, gula, encontra-se na prosa de Yuzuki que tem tanto de contida, austera, simples, minimalista como emocional e densa, resultando numa receita engenhosa e saborosa que mistura thriller e reflexões ensaístas femininas com ironia, critica social e cultural. Tudo polvilhado e servido com doses generosas de uma forma de escrever umami. É nesse equilíbrio entre sabores que se disseca um prato cuja digestão só depende do estômago de cada um.
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