Haruki-Murakami

A Morte do Comendador – volume I, de Haruki Murakami

No início, era (um)a ideia

Quem acompanha a obra de Haruki Murakami (não) sabe o que pode esperar a cada livro. Com um universo literário único, que se desdobra entre o real, o onírico e outras dimensões próprias, o escritor nipónico teima em publicar obras que são sinónimo de puros exercícios de catarse e A morte do comendador – volume I (Casa das Letras, 2018) não foge à regra.

Tudo começa quando um bem-sucedido pintor de retratos, sem nome e em processo de um inesperado divórcio após 6 anos de vida em comum, muda de casa. O seu maior talento é captar a verdadeira natureza interior do retratado através de uma leitura astuta do perfil emocional do outro, explorando as suas camadas ocultas da realidade superficial.

A perplexidade do processo de separação é algo que o protagonista não entende, mas a vida tem de avançar, uma existência que se quer diferente e precisa de um rumo que bem pode estar à distância de um próximo trabalho artístico. E esta busca por um novo caminho, um tema recorrente na obra de Murakami, vai determinar todo o enredo deste romance.   

Assim, quis o destino, ou mais propriamente a ajuda de um amigo próximo, que o “nosso” retratista se instale na antiga casa do reconhecido artista Tomohiko Amada, pai do referido amigo, que se situa num local isolado, qual retiro na montanha. Essa localização acaba por ser aquilo que mais se adequa ao estado de espírito do retratista e servirá de inspiração para a sua nova demanda: explorar a arte sem amarras ou restrições. E, aos poucos, começa a sentir-se no seio de uma tempestade criativa e artisticamente revigorado.

Mas, tal como todas as casas antigas, esta também está repleta de segredos e/ou objetos que são uma herança de quem a habitou. É assim que se descobrem discos de vinil, principalmente de música clássica – outro tema tão caro ao escritor japonês, ainda que a sua predileção seja o mundo do jazz – cuja beleza direciona corpo e alma de quem a ouve.

Mas, além dos muitos discos, é um quadro que o protagonista descobre no sótão recôndito da casa que vai alterar a sua vida. E a obra, apelidada, sugestivamente, de A Morte do Comendador, da autoria de Amada, assume-se como um elemento preponderante de toda a trama. Outro elemento essencial é o misterioso (e rico) vizinho Wataru Menshiki, alguém que vive do outro lado da montanha, – naquela que é uma clara “invasão” e alusão de Murakami a The Great Gatsby, um dos livros maiores de F. Scott Fitzgerald-, mas, aos poucos, se torna muito presente. E é Menshiki que, conhecedor do potencial artístico do retratista, lhe faz um desafio: pintar o seu retrato a troco de uma pequena fortuna.

A relação entre ambos cresce, e a uni-la está um primeiro (e depois outro) estranho acontecimento. Numa noite, o retratista ouve um estranho sino cujo som o desperta de madrugada. E, na tentativa de perceber a sua origem, tudo muda e passamos de uma “normal” realidade para o já habitual mundo fantástico de Murakami, cujo clique, mais ou mesmo subtil, torna tudo possível, sejam monges budistas mumificados, personagens que habitam quadros, sonhos que invadem a mente ou ideias que se personalizam. No fundo, formas de luta contra diversos tipos de solidão, seja ela física, emocional, religiosa ou intelectual.

E, de forma extraordinariamente hábil, através de um ritmo por vezes dolente, o leitor, nós, é/somos arrastado(s) para um turbilhão de conceitos filosóficos, para pequenas narrativas laterais onde a música e a história se misturam, sendo “engolidas” por pedaços de realismo mágico e algo bizarro, personagens consistentemente inconsistentes, uma crescente abordagem psicológica, ocorrências sobrenaturais, algumas de cariz sexual (O livro esteve mesmo envolvido numa polémica em Hong Kong, chegando mesmo a ser considerado “indecente” por um tribunal, pela forma como aborda temas ligados ao sexo…), assim como por e para maravilhosas descrições de um processo artístico, seja ele na forma de um quadro ou de um livro, deste livro, que é, todo ele, uma metáfora da própria obra de Murakami, sendo algo indescritível mas palpável, o reflexo do tal dom único do autor de livros dos Kafka à Beira-Mar, 1Q84 ou Crónica do Pássaro de Corda.

NDR. O segundo volume de A Morte do Comendador tem edição agendada para este mês. 



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