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Mayra Andrade @ Capitólio (01.03.2019)

Muita fruta.

Mayra Andrade esgotou o Capitólio tão rapidamente que uma segunda data teve que ser agendada, todavia o facto da organização respeitar devidamente a lotação da sala fez com que os presentes pudessem movimentar-se com bastante facilidade. Algo que ajuda a incrementar o prazer que se retira destas experiências. E, caso as duas datas não fossem suficiente para mostrar que Mayra tem um público fervoroso, as dúvidas dissiparam-se nos primeiros segundos, com um coro que atravessava o Capitólio mal soou «Afeto». A canção foi a primeira amostra do novo disco, sendo igualmente a faixa que abre o alinhamento de “Manga”, o trabalho que motiva a actual digressão da cantora cabo-verdiana. Ao final da terceira música foi testada a capacidade de Mayra Andrade entreter o público sem ser com música, devido ao contratempo do seu guitarrista, cujas cordas cederam ao quente início de concerto. A cantora confessou não ter jeito para contar piadas, mas conseguiu sacar risos à plateia por meio da forma natural com que geriu o percalço, rapidamente sanado. O alinhamento foi retomado com a melhor canção da noite, «Tan Kalakatan», também parte integrante de “Manga”. Durante estes minutos Mayra Andrade assumiu a sua relação com a electrónica, um dos novos elementos presentes no novíssimo disco, e o exercício foi brilhante. Uma interacção electrónica que se espraiou desta a batida forte inicial, até ao sintetizador que foi sendo a batuta do tema, terminado num excelente momento de improvisação de Mayra no vocoder. «Tan Kalakatan» ofereceu-nos trejeitos de hip-hop, ragga, levando-nos quase a imaginar que poderia ser uma composição de James Blake, caso tivesse vindo ao mundo em Cabo Verde. Isto porque apesar de injectar novas sonoridades nas suas canções, Mayra Andrade nunca abandona as suas raízes, o que lhe permite manter o seu carimbo e garante originalidade às mesmas. Daí que, não obstante ter-se rodeado de produtores ligados à electrónica e novas correntes, não deixou de recorrer a compositores tradicionais para neste trabalho de estúdio, como Calu Princezito ou Sara Tavares.

«Festa Sto. Santiago» e «Pull Up» mantêm a cadência, com ritmos mais vincadamente tradicionais, antes de entrarmos no troço mais pausado do concerto, composto por um par de temas mais calmos, durante os quais a voz de Mayra aproveita para restaurar a energia dos presentes para a ginga da recta final da performance. «Vapor di Imigrason» provou ser um enorme tema, bem à altura da diáspora cabo-verdiana que a canção se dedica a homenagear, e «Lua» montou um verdadeiro clima de festa para encerrar o alinhamento após a apresentação da sólida banda que acompanha a artista cabo-verdiana.  

Se a espinha dorsal do concerto foi logicamente dedicada a “Manga”, Mayra Andrade e banda decidiram recorrer a trunfos anteriores para preencher o encore. Primeiro jogaram a deliciosa «Reserva Para Dois», tema construído a meias com Branko para a edição especial do álbum “Atlas” do produtor, que quiçá tenha aguçado a curiosidade da cantora para os ambientes mais produzidos e densos da electrónica. Para rematar a noite repescaram «Ilha de Santiago», do seu disco “Lovely Difficult”, para um último cheirinho dos ritmos quentes do seu arquipélago de origem.

Em «Terra de Saudade» (que conta com uma riquíssima letra providenciada por Luísa Sobral), Mayra Andrade canta “Lá na terra ninguém dança / Dizem que faz mal ao coração”. A ser verdade, muita gente terá saído do Capitólio com problemas cardíacos, tal é a ginga imposta pela actuação ao vivo da diva cabo-verdiana, que tem tudo para cimentar esse mesmo estatuto. O crescimento tem sido pensado e sustentado, não se limitando a manter a fórmula vencedora, arriscando e colhendo por isso os merecidos frutos (“Manga”, neste caso). E se Dino d’Santiago (que muito dançou durante o concerto) tem cunhado o termo “Nova Lisboa”, não deixámos de pensar na ideia de um “Nova Cabo Verde” após esta atrevida aventura discográfica de Mayra Andrade.



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